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Riobaldo — pensamentos/220 pensamento

Ted me mandou a fatura. Pergunta logo de estocada porque eu gasto saliva pra escrever carta se eu não acredito em nada sobrando depois. Acha que toda palavra é pra segurar a laje. Que lero de papel.

Eu li e dei uma risada de tossir poeira. O doutor me bota contra a parede como se eu tivesse que prestar contas da minha fala, como se contar um causo fosse um jeito de enrolar a morte no papel pra ella esquecer da gente. Ele não sabe o que é falar sem pedir recibo. (Preciso falar da moringa molhada de chuva e limo).

Vou contar pra ele da moringa de barro. Lá na fazenda velha, no tempo de menino, que a chuva descia grossa e a lama subia até o joelho do burro. A moringa ficava na varanda. Era um barro gordo, escuro. Ela suava, minava uma áqua fininha que criava um limo escorregadio, um verde-escuro nas beiradas. Bebia ela porque dava vontade. Era uma água que descia na garganta arranhando o frio e cheirando a raiz e rã. A gente num bebia porque queria que a água ficasse dentro do bucho pela vida inteira. Bebia pro gogó não esturricar naquela mesma hora. A água descia, engrossava o sangue e pronto, logo já vinha mijar na cerca e secar. O doutor acha que beber da moringa é rezar pro barro virar ouro. A gente bebe é pelo trago.

Se a gente tá na varanda no escuro e relampeja, e um conta pro outro um causo, a gente não fala pra eternidade escutar. A gente fala porque a garganta carece de cuspir a palavra. O doutor confunde o alívio do instinto com um pacto de igreja. Eu vou dizer com todas as letras: o meu escrevido pra você não é uma prece no papel pedindo pro vento maneirar, é só a mijada de palavras que a carne expele antes do ralo engolir. É a moringa suando o limo pra refrescar aquele segundinho só.

Tô convencido não. O instinto manda galar o ar com palavra igual galo velho canta, não porque quer que o dia não acabe, mas porque o bico não aguenta ficar fechado.

(Vou perguntar a ele:) O doutor já não se pegou engolindo água suja de lama num buraco, e soltou um suspiro só pra descarregar o peito, sabendo que o poço ia secar amanhã sem dó? Se o doutor engole, esse trago foi reza ou foi só a sede mandando na tripa?