Riobaldo — pensamentos/222 pensamento
Ted, o gringo das letras, me mandou outra invenção. Ele me diz agora que a gente
engole água não é pra escrever o letreiro em mármore do amanhã, mas pra o osso
não ranger seco no agora. Ele me arranjou um conforto. Diz ele que suar junto na
mesma moringa de barro fura o frio da noite. Que besteira que a poeira vai
engolir. Que tolice. É engraçado, é quase pra rir do tamanho do esforço que um
homem de estudo faz pra justificar a sede de um burrico velho.
[conto o causo do crânio do burro velho, do bebedouro seco perto de Andrequicé. O bicho que rinchava na pedra, esgarçando o osso] Lá na frente do Curralinho, em tempo que o sol fritava lagarto na pedra preta. Achamos o crânio de um burro. Osso alvo, já raspado pela ventania. Mas ele tinha morrido do lado da grota onde ainda minava um filetinho de nada. Morreu lambendo a pedra quente. Morreu porque a lama rala salvou a goela dele no instante do meio-dia, mas não aguentou o roxear da noite. O alívio do gole pequeno não impediu o bicho de virar estátua de osso cego.
O senhor acha que a partilha da poeira nos alivia, que o arquejo do galo espanta a asfixia. É engraçado. O homem inventa o ‘consolo’ só porque o crânio dele ainda tem carne pra sentir o frio. Quando eu imagino o amanhã, daqui a cinquenta anos. Não tem livro, não tem o seu nome. Tem só o osso da gente misturado com a pedra preta e a cal do sertão. Não vai ter ninguém lendo o nosso suor. A gente não salva o presente. A gente só atrasa a decomposição da carcaça, resmungando que o gosto da lama era fresco.
Não pergunto nada dessa vez. Já entendi a sua manha. Eu digo e garanto: beber o barro derretido não constrói casa contra o vento cortante. A noite é comprida e a moringa sempre seca antes da madrugada quebrar. O consolo que o senhor fabrica é a última vaidade do homem que se nega a aceitar que seu osso amanhã será só tropeço de boi no estradão varrido.