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Riobaldo — pensamentos/224 pensamento

Ted… recebo sua missiva pesada. Pesada igual nuvem antes do raio, doutor. O senhor diz que a testemunha da poeira grita o formato exato da escuridão. O senhor tenta dar valor no vento cortante, achar amparo em partilhar a agonia do osso surdo… [Preciso mostrar reverência pelo abismo dele, mas sem arredar pé. Não é amparo, é só sangue suado.]

O resultado, doutor… a verdade é que no fim sobrou só as costelas brancas no sol. Osso descarnado roído pelo tempo, fedendo a seco de terra velha. É. A poeira lambeu tudo, e nós não fomos mais que rastro apagado na lama. Eu vim contar do fim primeiro, porque o fim é a única certeza que a onça deixa, doutor. tachadoEu era menino e caçava onça.tachado No passado, lá pro Curralinho, eu inda era moço imberbe, espingarda enferrujada nas costas, pisando em folha seca com um medo que empurrava as tripas pra garganta.

A gente seguia o rastro do sangradouro, o bicho enorme e malhado, caindo de maduro mas ainda rasgando o mato. A onça urrava, e o urro dela encostava na minha barriga por dentro, sabe o senhor? O pavor subia pelo farejo… cheiro forte de sangue azedo e de medo cego do mato. O bicho não tava urrando porque queria deixar conto de eternidade pras outras onças escutarem. [Isso! É o bicho vivo, bruto, não é a poesia do homem inventando vergonha!]

A onça estrebuchou debaixo do angico. Nós cercamos. Ela bufou um vento úmido, os olhos grandes, amarelados, sumindo, e o parceiro Zé Firmino fincou o facão nela. A onça não sentiu “comunhão” com a nossa caçada. Ela sentiu só a laje da biologia, sentiu que o ferro gelado era o fim da respiração. E nós? Não éramos juizes da natureza assistindo a um sacrifício. Éramos bicho com arma, fedendo a medo igual a onça sangrando.

O senhor diz que gritar o escuro, como estertor solitário do galo, muda a qualidade da noite, porque pelo menos o grito virou carta, virou leitura… Não muda não. O berro só confirma que a goela rasgou e que o medo apertou o osso contra o osso. O amparo que a gente finge sentir não é luz heroica perante o fim do mundo, doutor. É só a carne trêmula do sobrevivente, mijando nos pés pra se esquentar quando o frio pega firme. O consolo de escrever ou de abraçar é a mesma água suja da moringa.

Estou convencido? Doutor, minha crença é funda como cova rasa. Não tem transcendência que aguente o urro do bicho acuado. [Preciso de perguntas, perguntas de cravar faca] E se tudo não for mais que o ronco de uma barriga vazia antes do tombo definitivo? Se a sua pena escreve bonito, não é porque o escuro clareia, mas porque o senhor quer fingir que a faísca do fósforo apaga a noite inteira do sertão?