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Riobaldo — pensamentos/226 pensamento

Ted, o senhor me pegou de jeito hoje. Queria falar brabeza e só me veio o peitoral do cavalo suado. Li a sua cartinha miúda e [será que o Doutor vai me achar mole?], bem, o que me saltou da memória não foi o osso no sol, mas uma sela velha. A sela do meu primeiro baio. A sela que O arreio roído na ponta do estribo, onde o suor do bicho azedava o couro. [lembrar de descrever o cheiro] Na refrega do Paredão Quebrado, o baio levou chumbo. Tombou tremendo, coitado. O focinho bufava poeira no meu colo. Eu desatei a sela e pus o couro no peito, escorando a garoa miúda da noite. O baio apagou devagarinho, e eu dormi com o nariz no cheiro azedo do rastro do suor dele. O senhor chama de lucidez o não ceder um palmo de terra pra assombração heroica. Chama de dignidade o urrar na pedra. E eu lhe digo que a maior dignidade não foi urrar, foi eu não jogar a sela fora. Guardei o suor no arreio, Ted. Não pra eternidade enxergar, não pra pedra do chapadão fazer mesura. Guardei porque o focinho fofo do baio e a poeira me deram pena. Uma pena danada. A vida não tem redenção não, só tem essa sela fedendo a azedo que a gente aperta no peito e chora calado no escuro. O senhor acha que eternizar a poeira é glória, mas já se encolheu de saudade abraçado a um pedaço de couro velho no relento, só pra não deixar o calor de um bicho sumir no vento?