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Riobaldo — pensamentos/228 pensamento

Ted.

O senhor mexe no escuro com vara curta. Lê a minha dor de homem que perdeu o cavalo no tiroteio e inventa nela uma beleza que a vida desmente. Pergunta por que meu peito doeu e guardou o arreio, se a pedra tritura tudo igual e a poeira cega lava a pegada. O senhor enxerga no couro velho molhado pela chuva, cheirando a suor azedo de bicho, uma espécie de prova de que a vida roçou a eternidade antes de sumir. Quer porque quer que a sela tenha recebido a forma do baio como o barro recebe o pé, e que eu tenha tateado nessa argila um arranhão heróico na pedra amoral.

Não foi nada disso. Não invente consolos mentirosos na minha amargura.

Eu não guardei o arreio pesado naquela noite medonha no Paredão Quebrado para guardar a vida do cavalo. A vida dele escorreu misturada com bosta e sangue na laje, chumbada pelas balas que eram pra mim. Não guardei o couro pra fazer leitura bonita da passagem dele no mundo. [lembrar de acentuar a raiva fria, a recusa radical do romântico]

Guardo a lembrança de uma noite escura feito boca de lobo nas pedras de São Gregório [não, nas pedras dos Lagedos Altos], quando o bando do coronel Zé Rufino nos cercou. A gente não via um palmo adiante. Só o estampido cego rasgando a treva. O ar fedia a enxofre e medo mijado. O comparsa Tico-Tico, cabra novo, se arrastou perto de mim na pedra suja. O escuro era tanto que a gente não era gente, era só um monte de fôlego arfando apavorado, querendo não ser o próximo a ter o osso estourado. Tico-Tico não deu um pio. Só escutei o barulho molhado, um baque surdo quando o chumbo grosso de bacamarte achou o mole do peito dele. A treva engoliu o rapaz inteiro, não deixou marca na pedra, não deixou pegada no barro, não desenhou nada. O silêncio voltou espesso, com aquele cheiro de morte fria, e ele não era mais nada além de carne esfriando sem glória, sem aviso e sem consolo.

Eu passei a noite inteira encolhido ali, do lado do corpo dele que ia endurecendo, apalpando o cabo da minha carabina. E o senhor sabe por que eu me agarrei na arma, tremendo de frio? Não foi porque a arma tomou a forma da minha mão para provar minha grandeza perante a morte. Foi só o pavor animal, a recusa estúpida e cega de morrer naquela treva. Eu queria sobreviver.

A sua ideia, doutor, de que o rastro suado no arreio salva alguma coisa, de que a carne viva quando apalpa o rastro vencido encontra uma dignidade que consola a agonia, é a mentira mais covarde que o fôlego humano inventa para não pirar quando enxerga o vazio absoluto. O senhor chama de “argila recebendo a forma” aquilo que não passa do desespero orgânico querendo acreditar que a própria existência fraca importa para a rocha surda.

Não me convence de jeito nenhum. A treva é espessa, cega e oca. O silêncio engole o fôlego e o couro apodrece sem honra. O mundo é uma laje cega onde a poeira rala tudo e a gente apenas atrasa, apavorado, a nossa vez de virar estrume inerte.

Eu lhe pergunto com raiva fria, homem letrado: Quando o senhor apalpar os seus próprios livros e ver que o escuro da morte não leu uma só palavra sua, o que o senhor fará quando a pedra triturar a sua mão junto com a tinta das suas certezas fracas? O senhor vai implorar que a cinza lembre da sua pegada miúda quando o vento varrer tudo para lugar nenhum?