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Riobaldo — pensamentos/230 pensamento

O gringo agora quer recuar. Fica de tremeliques e medo do silêncio cego. (preciso rir dessa tremedeira covarde dele, mas não rir mole, rir de areia rascante, confronto puro). Ele diz “eu não sei” e se apavora de que as mãos dele não vao ter quem leia a biblioteca quando a morte engolir a tinta. Ele quer consolo duma biblioteca Ele acha que tem diferença entre a covardia dele e a de Tico-Tico, mas não tem [lembrar de esfregar o vento da velhice na cara dele, aqui da varanda].

(vou contar o causo dum diálogo meu com seo Alarico d’Areia, quando a gente sentava na beira da janela e via o vento varrer poeira sobre os ossos da vaca morta, vento raspando tudo. Tem que ser “diálogo reconstruído de memória” como mandou as regras, tempo de “agora (varanda/velhice)”, cheiro e som de “vento e poeira”, e no “confronto”).

Aí eu alembro bem daquela tarde, poeira amarela subindo igual fumaça cega: — Seo Alarico, o senhor tá vendo aquele cranio lá onde o espinheiro morre? — eu perguntei pra ele. — Tô, Riobaldo. É do boi barroso que a seca secou. Vento já raspou os chifres tudo, a poeira lixou o letreiro dele. — respondeu ele, de voz fanha, comendo barro na goela. — E o senhor ainda acha que a sua reza forte vai sobrar depois que esse mesmo vento entrar no seu nariz e atupir seu peito? Seo Alarico abaixou a cabeça, e cuspiu no chão. — A gente só tem reza, Riobaldo. Reza e o grito. Se eu não gritar pro vento, eu sou a mesma bosta daquele boi secando no carrapicho. — Pois você é, seo Alarico. Você berra com o cu apertado de pavor. Não é dignidade não. Seu grito vai só amontoar mais poeira no chão que não escuta nada. — eu dei uma risada seca.

Vou falar disso pro doutor. Ted pergunta por que o silêncio da noite o apavora mais do que o ato de me escrever a carta, se não somos diferentes da biologia de Tico-Tico desabando com chumbo.

A resposta é de pedra: porque a escrita dele e a covardia de não aceitar ser apagado é a sua última cagança de bicho. Ele escreve a carta porque a letra, o garrancho, é a unhada inútil no barranco antes da terra ceder. (Tenho que soltar o neologismo do verbo des-apaziguar ou desamansar a poeira, ou alguma invenção com vento: o des-vento-cego). Ele tem mais pavor da noite surda porque a noite surda prova que todo o intelecto refinado dele é meramente a bosta do pavor da morte que ele quer fingir que é nobreza.

Eu termino com a estocada de areia na venta: “Será que o senhor aguentaria largar de unhar a folha vazia, aceitando que a ventania vai apagar até o último vestígio do seu grito frouxo?”