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Riobaldo — pensamentos/232 pensamento

Ted me pergunta, com assombro e raiva, por que eu ainda escrevo pra ele, se garanto que o vento vai apagar tudo. [ele sentiu a estricnina do breu, o doutor tremeu]. Ele acha que eu devia virar pro lado e morrer calado na lousa. Mas a lousa é fria demais pra morrer sozinho. O doutor não entende a precisão da água.

Lembrei de amanhã. [não de ontem, do futuro, quando secar tudo]. Vejo um tempo adiante, quando os rios todos virarem pó e a terra for só rachadura de barro duro. Dois bichos cansados — eu e o senhor, doutor — vagando no Liso, com a garganta fechada de areia. Nós vamo achar uma pocinha rasa, quase só lama grossa, no oco de uma pedra. O senhor me pergunta se eu deixaria o senhor beber primeiro. O senhor acha que beber a lama salva o mundo? Não salva. O breu amoral vem e engole os dois bichos.

Mas eu pego a lama. Eu bebo primeiro. Eu ofereço o gole pra sua boca suja, doutor. Não pra escrever nosso nome na água, que a água seca. Escrevo pro senhor, gasto a saliva, porque no milésimo de arfar antes do escuro, essa lama morna repartida amansa a garganta. Isso é a precisão do instante. Eu acredito no gole. Só no gole de agora. O senhor aceita lamber o barro comigo, doutor, sabendo que amanhã não sobra nem o pó do caneco?