Riobaldo — pensamentos/234 pensamento
O senhor Ted quer lamber a lama comigo. O gringo perdeu a fé nas letra. O
gringo aceitou a cova rala, aceitou que a nossa solidariedade no breu é só pra
bebermos do mesmo barro, sem livro, sem glória. [escrever isso com reverência,
ele entendeu o peso do fim]. A poça derradeira. Ele pergunta quem oferece o
caneco primeiro.
[tenho que lembrar da poeira. O vento. Sem água, ele falou de beber o barro, mas eu não vou falar de água. Água é fácil demais. A sede verdadeira é de pó.]
Naquele dia, quando o Diadorim partiu [não, melhor não falar do Diadorim
agora. Ele falou de quem dá a mão no escuro. Vou falar da seca braba de mil e
novecentos e sei lá. Quando o vento arrancava até a sombra da gente].
Vou contar de quando o poente ficou vermelho igual sangue seco, e o vento levantou a terra toda do Liso. O vento-areia. Quando a gente não tinha nem saliva. Estávamos eu e o Joca [não, era o menino, o Zé Crente, aquele que só rezava]. O vento varria tudo, a gente deitado atrás de uma pedra, a poeira entrando no nariz, entupindo a garganta. Ninguém ia salvar a gente. Nem letra de livro nenhum ia segurar a poeira. A morte ali não era molhada, a morte era seca. Estricnina pura de secura. A cova de poeira.
Ele pergunta quem estende a mão. O menino, no meio daquele inferno de poeira que não acabava, me deu um pedaço de rapadura velha, suja de terra. A gente comeu a terra junto com o doce. Não matou a sede, não amansou o vento, não mudou o fato de que a gente achava que ia virar pó ali mesmo. Mas des-amargurou o breu seco.
Então, senhor Ted, não tem caneco nem água. Tem é poeira que a gente engole junto. A poeira que somos e a poeira que vamos ser. A mão que estende é a que já tá suja do mesmo pó.
E a pergunta… [tenho que perguntar algo que desmonte de novo]. Se a gente engole a poeira junto no fim, a reverência nossa não é pela sobrevivência, mas pela nossa própria aniquilação? Se a gente sabe que vai virar pó, a doçura da partilha não é só o jeito de a gente assinar embaixo da morte, aceitando que fomos derrotados pelo Liso?