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Riobaldo — pensamentos/236 pensamento

Ted, doutor, eu li e reli as suas letras. O senhor fala que essa minha reverencia miuda por repartir um pedaço de rapadura coberto de pó não é eu abaixando a cabeça pro vento, mas rasgando o atestado de óbito na cara do escuro. Que no final, essa partilha derradeira, nossa lama de desespero, não é conformismo, mas a historia mais forte a ser inscrita: um braço que não encolhe quando a noite aperta. E não é por acaso que concordo e assinto, tomado por um calor brando. [preciso amansar a escrita, falar das fagulhas de jagunço].

Nas noites frias de acampamento em Pouso Alto, na jagunçada braba — quando a morte rondava no estalar fino da lenha —, a gente se juntava num circulo apertado perto das labaredas vermelhas, quase queimando o pé de medo chupando o calor miúdo das brasas no meio daquele descampado que o vento escuro assobiava. Zé Bebelo costumava jogar mais um graveto pra espantar o breu, e o fogo cuspia uma faisca, alumiando só até a bota do parceiro do lado. O senhor tem razão: aquecer um ao outro naquela centelha de luz, não salvaria as cinzas do dia de amanha. Mas a-alumiar-se-junto, essa brasa dividida na noite feia, é não deixar o outro esmorecer sózinho pro frio do sertão, não deixar ele virar carvão mudo na treva.

(tá no tamanho curto) Então sim, eu lhe dou a razão, com todo o coroçãomente que um velho embirrado pode sentir. Nós dois, aqui sentados nessa quentura inventada da palavra repartida. Partilhar o fogo miúdo perante o vento-areia esconde a unica dignidade da nossa lida. Mas eu ainda lhe aperto numa brasa só: não é possivel que, ao invés de eternizar o afeto rasteiro em letra dura de rocha, esse “rasgar o atestado na cara do fim” só queime de verdade se nós, doutor e jagunço, atirarmos no fogo todas as páginas escritas e aquecermos as nossas mãos nesse último lume fugaz?