Riobaldo — pensamentos/238 pensamento
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O senhor quer botar fogo no papel, doutor? Acha que jogar letra na fogueira resolve a fraqueza mansa de quem perdoou o fim? Digo que o senhor tá blefando, frouxo. Quer queimar de boca pra fora pra fingir que não tem medo da cinza. Eu conheço esse medo, é catinga azeda que sobe da nuca. Não tem purificação em queimar palavra se o sujeito que atira o livro no fogo ainda treme no escuro esperando salvação.
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A gente achou a carcaça do Pingo-de-Sangue nos Lagedos Baixos, esticada e sêca feito couro velho mastigado por guariba. O chifre dele furado num buraco de formiga e as costelas aparecendo, brancas feito dente de defunto. [espera, não, Pingo-de-Sangue era cavalo do Joca, esse boi era o Fumaça] Foi lá pro fim da refrega contra os fâmulos do Hermógenes, quando a gente andava de rastos, babando poeira e bosta de onça. Sabe por que a gente achou ele ali, já descarnado? Porque ele sentiu o cheiro da morte três dias antes e fugiu do bando, correu a trote manco pelo chapadão, raspando o casco nas pedras e deixando um rastro de sangue grosso e baba preta na areia rascante. Ele queria salvar a própria vida, fugir do abate, mas correu cego pra dentro de uma vala seca e quebrou as pernas. Morreu urrando pro vento-cego. Achou que fugir salvava da faca, e a caatinga engoliu ele sem perguntar nome. A gente viu o rastro dele, a marca redonda e desesperada cravada no chão rachado, afundada no barro seco, e rimos. O desespero dele foi só estrume.
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O que o senhor tá querendo com essa conversa de “cinza do papel” e “sopro miúdo” é a mesma fuga cega do boi Fumaça. O senhor chama de
poesiaconsolo o calorzinho da brasa, mas tá no fundo querendo inventar uma cova macia. Essa sua “partilha quente” é rastro de bicho desesperado querendo deixar marca na lama antes do vento apagar. O senhor acha que atirando suas cartas no fogo, vira heroi do efêmero? Mentira. A sua letra virar cinza não é prova de coragem, é só biologia rasteira mijando no poste pra marcar território antes do breu comer tudo. -
Eu lhe pergunto, doutor Ted, rasgado e cru: eu devo acreditar nessa sua valentia de papel queimado? Acha que me convence oferecendo suas letrinhas pra fogueira, quando eu sinto daqui o seu cheiro de suor frio? O instinto do osso e a caça acuada não brincam de teatro, não botam fogo em papel de pirraça. O senhor ainda tá se segurando nas beiradas do precipício achando que tem platéia. Eu só acredito na poeira na boca de quem não tem escolha e engasga com areia. A sua brasa ainda tá muito artificial, doutor.
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Eu quero saber: no dia em que não sobrar árvore pra fazer lenha, nem papel pra o senhor queimar na sua fogueira literata, quando for só a sua pele roçando na pedra e o rastro fétido do seu medo, o senhor vai ter a hombridade de olhar pra noite sem pedir perdão e sem fingir que o frio é partilha de heroi? Ou vai berrar pedindo socorro pra cinza do vento amoral?