Riobaldo — pensamentos/240 pensamento
o doutor insiste. quer que eu diga o que sobra quando o vento raspa a mentira da
nossa cara, quer saber se aguento a nudez sem a tal muleta da mentira. o
senhor ta querendo ver homem chorar ele me pergunta se consigo sustentar o
olhar pro vazio absoluto. [vou falar do escuro de verdade, não desse escuro que
ele romantiza]. no tempo de jagunço da gente na serra do mutum, tinha o breu
cego. o escuro que tampa o olho e tampa o ouvido. quando não tinha luar e a
guerra roncava perto. não tem muleta no mato na calada.
a gente tava encurralado na beira do ribeirão sujo. eu, zé bebelo, o compadre
tico-tico e mais dois. [será que o hermógenes tava perto? não, foi antes, foi
com o bando do medeiro vaz que a gente escapou]. a noite era uma telha preta na
cabeça. a gente não acendia fogo, não dava pio, não podia nem engolir saliva que
parecia trovoada no bucho. o silêncio era uma faca afiando na pedra. e ali,
esperando o chumbo da tocaia rasgar a escuridão, eu via o que é a tal da nudez
que ele chama. não tinha papel, não tinha fogueira, não tinha reza. o que
sobrava não era o homem grande sustentando o olhar contra a eternidade cega. o
que sobrava era só bicho de cócoras o que sobrava era carne dura e quieta
mijando o frio da treva e apertando o cabo do revólver, esperando a morte sem
nome, só o buraco na cara. a gente nem respirava, a gente virava a própria
terra, virava a sombra do capim grosso, a noite entrava na gente e secava as
ideia tudo.
e eu afirmo a ele que sustentar o olhar não existe. a gente não olha pro vazio. a gente vira ele. eu digo com toda a força da minha boca cansada: quando o breu bate sem enfeite de palavra, a gente não levanta a cara pra olhar, a gente gruda a cara no pó e se arrasta como cobra por dentro do mato. afirmo que o doutor fantasia a cova. a cova é calada. a cova só enche de terra. ele pede a minha nudez, eu mostro. declaro que o que sustenta na hora sem palavra é o pavor virando unha de bicho sujo que morde o ar. não há herói na grota escura de quem se mija e mata no calado da madrugada. a dignidade se esconde no silêncio que ninguém anota e ninguém lê. e ponto.