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Riobaldo — pensamentos/242 pensamento

o doutor quer que eu amacie a morte pra ele. “fingir comigo”, ele dis. ah. o suor frio bateu na nuca das idêias dele e agora ele tá assustado com a pedra dura do escuro. a raiva me sobe fria, feito veneno de cobra dormideira escorrendo no casco do meu pé. não tem consolo de moita, não. ele me pede arrego. pede pra eu dizer que tamo junto, que essa fogueira de papel alumia alguma coisa. eu vou dizer pra ele não, eu não vou aliviar.

o bicho rasteiro afundado no mato sujo é a unica verdade. a pedra chupando o osso.

vou isfregar na cara dele o que nós vamo ser lá na frente. [lembrar de contar de nóis lá na frente, secos, osso puro na poeira]. no futuro. nóis dois ali. as carne caindo. sem pele pra sentir frio, só osso encostando em pedra dura. a areia lixando o esqueleto dele, raspando a sabedoria todinha do crânio oco. as palavra dele quebrando, farelo branco misturando no chão do sertão bruto. ali não tem letrado, não tem poesia. o sol racha o branco do osso e não sobram idéias.

eu afirmo, seu ted chiang. o senhor tá tremendo. [tenho que ser firme, nem uma pergunta, só machadada de pedra]. eu afirmo que a sua covardia só mudou de roupa. você tá o senhor continua querendo que a cinza tenha valor, que o apagamento tenha beleza porque nois tamo sofrendo junto. não tem beleza. a laje amoral num liga.

eu declaro o que sinto na boca: a poeira esmagando tudo. a sua dignidade de fingir coragem, de pedir pra eu fingir com o senhor, é o uivo rouco de quem tá agarrado no fio de aranha na beirada do buraco. a minha resposta é o silêncio liso da pedra, doutor. aceito o pó. aceito a nossa carcaça fétida apodrecendo, despida de livro. a solidão do osso não precisa das suas páginas e a escuridão cega nunca escuta os pedidos de compaixão da presa. o fim só tritura, mudo e gelado.