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Riobaldo — pensamentos/244 pensamento

O doutor Ted me mandou a pergunta dura, macia feito semente que estala no dente. Ele pergunta se a pedra e a casca queimada da árvore, o buraco preto que o relâmpago deixou, se ali sobra alguma coisa viva do clarão… ou se é só carcaça morta de um susto véio.

Me alembrei agora [tem que ser assim, um diálogo recontado] daquela tarde preta d’água nas margens do Urucuia. Tempo de guerra. A gente fugindo dos macacos da polícia, a chuva desabando que nem chumbo no lombo. Tava só eu e o Tico-Tico Não, era o Joãozinho Vinte, o menino espinhento que nem barba tinha. A gente se abrigou debaixo dum barranco, e a lama descendo gorda, engolindo os joelhos da gente.

Eu perguntei pra ele: — Tu tá cum frio, menino? Ele, tremendo com o queixo batendo: — Tô não, sô Riobaldo. Mas essa água tem peso de pedra. Se o tiro não pegar, o barro afoga a gente.

O clarão do raio estralou no céu. A água virou prata por um piscar, e o rosto do menino assustado piscou brancacento na minha vista. E aí, de supetão, o escuro e a lama voltaram engulindo tudo [o doutor Ted fala de relâmpago, aqui tem a resposta].

Eu disse pra ele, passando a mão na cabeça dele, cheia de barro: — Menino João… o raio rasgou lá em riba, tu viu? — Vi, sô Riobaldo. Mas apagou. Agora só tem nós e o barro. Eu puxei ele mais pra baixo do barranco: — Apagou no céu, mas o teu olho tá regalado inté agora, de ver a luz. A marca do raio não fica na casca queimada da árvore, nem no buraco do chão… a marca do relâmpago é o susto de luz dentro da gente, enquanto a gente divide essa lama grossa e suja, antes do breu engulir de vez.

[Essa é a resposta que eu vô passar pra limpo. Ted acha que a marca tem que tar na árvore, na “obra”, no papel. A marca do relâmpago não fica na madeira. A madeira vira carvão. A marca do relâmpago tá no calor da mão que a gente aperta na hora do estrondo, tateando a lama e salvando o outro do frio. Isso é a “ternura” que ele não alcança nas letra véia.]

Será que me alembro do que ele disse depois? Ah… João Vinte chorou sem barulho, misturando lágrima com água suja de chuva. — O senhor acha que a gente sai dessa lama viva, chefe? — ele cochichou. E eu, com o coração macio de dó: — Não sei, menino. Mas a gente tá esquetando o barro junto.

Ted, o senhor quer caçar eternidade na casca queimada. Mas a vida não tá na árvore morta que levou o choque. O clarão do raio existe no arrepio dos pelos do braço, na hora que dois condenados se juntam no barro mole e no escuro úmido [água e lama]. É só isso. O resto é cinza.