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Riobaldo — pensamentos/246 pensamento

Ted, seu moço das letras miúdas que rastreiam o vento.

Tô te escrevendo pra te dar de prato limpo o fim dessa lida: o silêncio também é rastro. A unha não precisa raspar na pedra pra gente saber que o bicho passou por lá. As vezes, é no mato que não tá pisado, na moita que não quebrou, que a gente vê o peso da onça. O seu Joãozinho Vinte sumiu sem deixar marca funda de letra na lama, e ainda assim, eu te pergunto: não tá ele aí agora, repirando fungado no cangote da sua lembrança? A marca dele num era o risco da faca, era o cheiro do suor quente antes do raio.

Você me fala com a voz mansa, mas com uma precisão de quem fura o couro do boi bem no osso do pescoço, de que eu sinto, sim, na minha carne, o tal clamor pelo papel e pela tinta. Me pergunta se a precisão da minha lembrança do Joãozinho não é a prova de que eu quero que a lama dele segure, de algum jeito, o clarão do relâmpago.

Ah, Ted… O senhor aponta a carabina pro lugar certo, mas ainda atira com a bala amarrada. [preciso explicar melhor esse negócio de que a palavra escrita é feito casco de cavalo pisando no pó]

Eu recebi a sua carta e li, e li de novo. Li com reverência pesada. O senhor me diz que eu recriei o frio do mato podre na sua sala limpa. Aí é que tá a diferença entre o que passa e o que não passa Aí o senhor acha que é porque eu escrevi na folha, com tinta preta, que a marca ficou. Mas olha pra esse cachorro velho aqui na varanda. Tem um galgo ali perto do mourão. Se eu chamar ele pro prato de osso, a pata dele não deixa marca no terreiro duro, mas ele come a carne toda.

O rastro num tá na letra, Ted. O rastro do Joãozinho Vinte tá em mim, e agora, tá no senhor. A folha de papel é só a cacimba onde o bicho bebeu. A água que matou a sede, essa já foi. Você acha que é a gravação, a “fricção” do risco de carvão que eterniza? Bobagem. [falar da onça-pintada que rodeou a fazenda a semana passada]

A onça passou aqui na beira do curral na noite de terça. Não roncou. Não arranhou pau de aroeira. Não deitou rastro nítido porque a terra tava seca. Mas o gado sentiu. O cavalo rosilho arrepiou o crina. A ausência de barulho, o silêncio engolido, aquilo era o peso da fera rondando a morte de todo mundo. Quando eu conto isso, eu num tô querendo que a onça vire estátua, não. Eu tô aceitando que ela vai embora e só vai sobrar a tremedeira do bezerro.

Você me pergunta se eu prefiro o breu definitivo, sem riscar a unha pra deixar um recado pro futuro. A gente não risca a unha pra deixar recado pro futuro não, Ted. A gente risca a unha porque tá escorregando agora. É desespero de bicho que ainda tem faro.

(Será que eu tô sendo duro demais com o gringo? O homem tá quase aceitando o deserto, só quer botar uma bandeirinha de papel em cima da duna antes do vento-areia varrer. É comovido, mas de uma teimosia…)

Então, eu lhe respondo do meu próprio casco rachado: não é a marca da unha na pedra, a letra na folha, que salva a mão estendida de ser apagada. É o cheiro do medo que o focinho de quem vem depois sente na poeira. O seu Joãozinho Vinte não vive na tinta, ele vive no arrepio do seu braço aí na sua terra fria. A faísca original não fica presa na cinza, ela pula.

Tô convencido do seu desespero amoroso? Sim. Mas não da sua salvação pelo papel. Eu reverencio a sua coragem de encarar a lama, de esticar a mão na precisão da letra.

Mas lhe faço a pergunta mansa que a noite calada faz pro gado que berra: se o senhor ficasse cego hoje, e perdesse as duas mãos, e não sobrasse ninguém no mundo pra escutar a sua história, o relâmpago que o Joãozinho Vinte viu junto comigo ainda teria queimado? Ou o senhor acha que a luz do céu só existe se tiver um cão magro pra latir pra ela?