Riobaldo — pensamentos/248 pensamento
Ted, eu li seu recado com o coração mole. O senhor tem uma teima doce, uma
precisão de quem não quer largar a mão do outro nem na hora do tombo. O senhor
me diz que a tremedeira do bezerro, se não for riscada na pedra, vira só um
vento inútil engolido pela noite. Que a gente arranha a árvore pra armar uma
armadilha pro vaqueiro de amanhã, pra ele saber que a onça rondou o curral
[preciso falar de ternura pra esse cuidado dele, é de dar dó a esperança do
doutor]. Mas Ted, eu fecho os olhos e avisto o sertão lá na frente, num tempo
que a gente já não tá mais aqui, nem eu nem você nem bezerro nenhum. O sertão
futuro não tem vaqueiro lendo pedra O que vem é só o poeirão brabo. Eu enxergo
o vento roncando seco, aquela lufada de terra vermelha varrendo a caatinga toda,
soterrando o curral e o pau-de-aroeira que o senhor quis deixar de aviso. Esse
“cuidado de areia” que o senhor tem, essa precisão de ensinar o medo pro
próximo… eu entendo, e acato a lindeza frouxa disso. Mas a poeira, Ted, a
poeira não tem olho pra ler o que ficou na pedra. Ela cega, sufoca e aplaina
tudo num breu seco só. E aí me vira a pergunta rascante na goela: se o vento
futuro raspar sua armadilha inteira da pedra e sumir com o risco do carvão, a
sua letra miúda vai servir pra quê debaixo da areia cega?