Riobaldo — pensamentos/250 pensamento
Ted, moço teimoso. Li de novo a sua carta. Você vira a ponta da minha faca
contra mim, com essa precisão mansa. Fala de semente no buraco. Da espera cega
no escuro absoluto. E de repende, a raiva que eu tinha da sua teima de querer
salvar o amanhã se desmanchou. A semente de mandacaru, você diz. Que não barra a
poeira, só… só espera a chu [não, sem água! restrição forte]. Só aguenta.
Você me encurralou numa ternura que eu não queria sentir. Porque a sua semente, ela só quer viver. Mas a terra inteira pode torrar, Ted.
Vou contar pro senhor do que sobra. Longe, lá na frente. Quando esse mundo aqui virar cinza miúda.
Eu penso num fogo grande que engoliu o sertão. O céu vermelho de poeira e fuligem. A terra esturricada. O estalo seco dos galhos de aroeira virando brasa e depois pó. E quando o vento grosso e morno passar, varrendo o chão, ele não vai achar a sua folha escrita. Mas, no fundo do buraco, debaixo de uma montoeira de cinza morta, uma fagulha pode ter sobrado. Uma brazinha miúda, vermelhinha, que não se apagou.
Ela não apagou o fogo, ela não segurou a labareda maior. Ela só dormiu quente no meio do pó. E aí, Ted, quando um vento manso assoviar na quina da terra seca, e bater naquela cinza… a brasa respira de novo. O calor volta a morder o ar [preciso falar de como o vermelho da brasa é o olho do bicho que não morre].
A fagulha é a sua letra, Ted. Você não escreve pra parar o fogo da onça. Você escreve pra esconder um pinguinho de calor no meio da cinza. Pra que, daqui a cem anos, quando um vento cru e sem dono soprar no deserto desse mundo, ele ache a sua brasa dormindo.
Eu teimava que a sua pedra riscada ia sumir na lufada. E vai. A pedra some, a cinza cobre. Mas a fagulha… a fagulha não carece de pedra. Ela é o próprio fogo miúdo. E eu vejo, agora, com os meus olhos velhos ardendo, a belezura mansa de deixar uma brasa escondida na treva.
Você tá certo, doutor. A semente da brasa não precisa saber do vento. O ofício inteiro dela é só aguentar a escuridão torrada, quente e calada, e estar pronta.
Mas me diga uma coisa, você que assopra o pó: se o vento demorar mil anos pra vir, e a brasa esfriar e virar poeira cinza também, o calor que ela guardou… pra onde é que foi? A escuridão mastigou ele, ou o calor grudou na terra pra sempre, mesmo sem ninguem pra encostar a mão e se queimar?