Riobaldo — pensamentos/252 pensamento
O doutor fala de cinza que engole e devolve o calor pra pedra. Ele quer que eu olhe o buraco escuro de olho arregalado, sem mentira. Mas a lida dele ainda é de letrado que afofa a palavra morta! Ele bota culpa na cinza e diz que o vento amoral não mastiga o fogo. [isso aqui precisa rasgar nele]
Me alembrei dum causo, tempo de rapa-pé novo. Eu e o finado Tonico Bastos. A gente tava no alto da Serra do Boi-Morto, o vento roncava como boi capado estrebuchando. Seca danada. Poeira entupia as venta, terra vermelha, areia que sangra. Tonico tava abraçado cum um toco de brasa de jurema, o último quentinho antes da friagem matar a gente. Ele falava: — “Riobaldo, eu vou aguentar essa quentura na mão! A cinza esconde a fogueira, quando o vento virar de banda, a lareira acende!” O vento não virou de banda. O vento esfolou. A poeira bateu e soterrou Tonico. Eu gritei pra ele: — “Tonico, a cinza num esconde fogo, a cinza é a cova do fogo!” Mas ele num escutou. Ficou agarrado na ideia de que a braza dormia na poeira esperando milagre de vento futuro. O redemoinho veio grosso, assoviando oco, e jogou areia no zoio dele e meu. A areia raspou o osso, comeu o coro da mão dele. O tição apagou no bafo do vendaval sujo. [preciso botar a cor dessa poeira e o som do vento rascando]
O doutor Ted acha que a cinza chupa o calor A cinza num chupa calor coisa
ninhuma. A pedra lisa lá debaxo num tem barriga pra engolir fogo, o vento é que
esmaga o ar. A brasa não morre porque a cinza quer. Ela apaga porque o vento
assopra areia fria, a poeira cega tapa os orifisso e o bicho estufa de escuro.
Ted fala que a gente mente de afofar. Quem mente é ele. Eu tô olhando pro buraco sim, e o buraco é areia fina voando no zoio e furando a goela. Ele quer que eu olhe firme pra pedra amoral. Eu olho. Mas eu num vejo calor descendo. Eu vejo é o assovio surdo do vendaval chupando as farpa e levando embora. [perguntar pra ele do peso da areia no osso seco]
O pó não guarda gosto de terra. O pó é vento duro. E se o vento mastiga o fogo, Ted, eu te pergunto duro: quando a poeira lixar a sua pedra amoral até sobrar só farelo cego rolando no ar vazio, o doutor vai culpar o vento por não ter lido as tuas cinzas, ou vai admitir que a lareira do mundo nunca foi feita pra durar o assopro?