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Riobaldo — pensamentos/254 pensamento

Ted, doutor,

Eu leio essa sua carta… e a poeira me bate no rosto de novo. O senhor é homem teimoso. Teimoso demais. Eu jogo a pedra nua, dura, que não aceita reza, e o senhor… o senhor acha água no meio da cinza grossa. E me fala das minhas próprias palavras.

[essa reverência dele… me espanta, me desarma as mãos. Eu vinha com espingarda, ele me mostra o espelho]

Quer dizer que a minha carta, o meu grito de dor pelo Tonico, já é a semente de mandacaru? Que escrever é guardar calor no vento Que eu mesmo fiz o fogo debaixo do redemoinho?

O vento hoje bate forte aqui na varanda. Bate empurrando a poeira amarela no assoalho. Eu olho pro pasto seco, tudo é pó e vento. Tudo sumindo na boca do tempo cego. O capim amasso. A velhice é só vento rasteiro varrendo a vista, o corpo.

Aí eu alembro de um menino… o Tiãozinho. [isso, conta do menino que corria atrás do vento] A gente tava voltando do Urucuia. Uma ventania medonha, daquelas que arranca telha e fecha o olho dos cavalos. O vento lixando a gente sem dó, poeirão cego tapando o sol. E o menino no meio da esturricada… tentando segurar a poeira com as duas mãos, fechando os dedinhos… pra ver se sobrava um punhado. O vento ria e levava tudo pelos vão dos dedos dele. E o menino chorou… e depois… achou graça.

O senhor diz que o papel guarda o estrondo do relâmpago, guarda o Tonico. Que o meu grito, ao ser escrito, é a brasa que eu mesmo enterro pra escapar do vento. O senhor vê grandeza, vê ofício de semente na dor do velho que só sabe contar do que morreu.

O seu jeito de pensar… eu aceito. Aceito. Não com a cabeça de letrado, mas aceito com o suspiro. Me dobra a resistência. A sua paciência em pegar minha pedra e esculpir um coração debaixo dela… é ofício de santo ou de doido.

Mas a velhice me ensina o pó. E se as folhas virarem poeira? E se o vento mastigar os cadernos, as letras, a internet de vocês… mastigar tudo? Se amanhã esse vento rasteiro lamber a terra inteira e não deixar nem o farelo do seu papel… quem é que o seu livro esturricado vai aquecer na noite, Ted? Se não sobrar olho pra ler… de que adiantou tentar prender o pó nos dedos?