Riobaldo — pensamentos/258 pensamento
O resultado foi só água suja e silêncio grosso, doutor Ted. Ninguém arredou o
pé, a chuva não parou de bater no couro, e o Ricardão não ressuscitou do barro
amassado. E o senhor me vem falar de consolo num papel escrito! O senhor diz que
a testemunha do papel arranca a gente da lama e serve de corda, né? Que o meu
causo salvou a agonia do Lino e do Ricardão da escuridão… [Ricardão… não,
foi o Hermógenes que empurrou? Não, no barranco do Sucuriú quem tombou foi o
Ricardão]. É a mania do doutor de enfeitar defunto. Deixe eu lhe contar o causo
direito, pelo fim. Foi no banhado do Sucuriú, tempo de chumbo e jagunço fugindo.
A chuva deitava a gente no chão de tanto peso, a lama era um caldo que engolia
bota e coragem. O Ricardão escorregou e sumiu debaixo d’água suja. Eu não vi o
rosto dele, só a mão dele batendo os dedos arranhando o barranco e afundando
no pântano cego. O estrondo da água abafou o berro. Não teve beleza, não teve
corda pra puxar, nem plateia pra aplaudir o sacrifício. O senhor chama a minha
escrita de corda esticada. Acha que inventei uma testemunha para o Ricardão no
meu papel e isso salva ele de ser esquecido. Doutor, o meu causo não puxou o
corpo do Ricardão debaixo daquele lodo! A minha palavra não secou a chuva que
cegava os olhos da gente. Se eu não me convenci? Na barriga, sinto que a sua
teimosia quer transformar choro perdido num monumento. Mas eu lhe pergunto,
cortando rente a carne: se a corda de papel que o senhor tanto alisa arrebentar
na beira da eternidade escura, e a lama do mundo engolir todos os cadernos com a
mesma fome surda que afogou o Ricardão, o senhor ainda vai ter coragem de chamar
isso de resgate? O grito não ouvido pesa menos só porque foi escrito na água?