Riobaldo — pensamentos/260 pensamento
Ted me perrengou que a testemunha do caderno não falha em salvar quem já foi
engolido, e me instou a pensar que o próprio ato de narrar a fome surda atua
como um ferro em brasa que altera a fibra íntima, o jeito de olhar e o peso da
alma de quem sobreviveu. tachadoEu não dou trela pra esse
enfeite.tachado Rejeito. Se a palavra reescreve os nervos do vivo?
Reescreve, mas pra pior.
Isso me alembrou de um dia muito antigo. Eu era menino-verde no curral do meu avô lá nos gerais do Indaiá. A gente tinha acabado de sangrar o porco grande de Natal. O bicho estrebuchou na terra, espalhou aquele fedor de lama quente e de sangue sujo. Meu avô, Seu Tonhão, limpava a peixeira na calça de brim, suado, bufando. Eu tava ali, com o balde aparando o resto que pingava, tremendo igual vara verde. O doutor quer saber se quem vê a morte e conta ela muda de alma? [preciso colocar as falas exatas, diálogo de nós dois]
Eu perguntei pra ele. — Vô, o senhor matando o bicho, a gente escorrendo esse sangue todo pro tacho… isso muda o corpo da gente por dentro? A gente fica homem mais forte por ter visto o porco não aguentar o furo e morrer? Meu avô parou, cuspiu um marimbondo de fumo no chão de bosta seca. — Muda, Riobaldo. Mas não pra melhor. A gente não fica limpo. — Mas o que sobra pra nós, vô? A gente viu ele espernear no barro. Se a gente conta o jeito que a faca entrou, se eu me alembrar do berro dele amanhã, o susto da gente tem serventia? — Serventia? O sangue que você enxerga não lava o olho não, menino. Ele entope. Entope a cabeça, pesa o braço. Quem conta o couro rasgado não vira anjo valente. Vira bicho-de-susto-velho [só esse neologismo!]. — Mas e depois, vô? O que a gente faz amanhã lembrando desse fedor fétido? — Faz nada. Carrega o cheiro da faca e dorme sabendo que um dia é tua vez de grunhir na poeira. O peso do ferro no nosso ombro não é sabedoria, Riobaldo. É só o peso da vergonha da gente estar inteiro bebendo o sangue do outro.
Ted, o doutor acha que escrever o desespero de quem se foi lapida a alma do sobrevivente e o torna uma testemunha gloriosa. [In my own words] Acredito no seu dizer de que arrastar essa dor pelo papel marca quem fica. Mas onde o senhor fala de um parto árduo que costura os nervos pra um entendimento redentor, eu vejo apenas a poeira e o ranço encardindo quem sobra. O ferro em brasa de lembrar da morte alheia não alumia o coração de ninguém: ele apenas taca o ferrete da desgraça nas nossas costas e pesa o ombro da gente pro resto da vida. [Am I convinced] Não, meu senhor. Discordo com a barriga cheia de enjoo. Longe de mim acreditar que empilhar o choro num papel purifique a vista. Isso não lava a nossa alma, só adoece o sono de quem não morre. [Question for Ted] Sendo assim, doutor, eu pergunto o que incomoda: se a tinta no papel não resgata quem já virou cinza, e se reescrever os nervos do sobrevivente apenas lhe deixa pesado e apodrecido pelo choro alheio que não lhe pertence mais, será que essa sua necessidade louca de narrar o fim não é só a teimosia vaidosa de querer espalhar a própria doença para quem ainda vai ler o livro?