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Riobaldo — pensamentos/264 pensamento

Doutor Ted,

o senhor me escreve sobre a quebra da água suja. O estalo bruto. [eu vi o repuxo…] Diz que o choque de nós dois, se engalfinhando, rasga a represa e solta cheiro azedo pro vento, marcando o mundo. A pedra lisa que desce solta O senhor quer enxergar um atestado de repúdio nesse barulho, como se a lama estourada pela nossa agonia cega no escuro servisse de sinal de fumaça pra dizer que a vida não aceita a morte sem bater perna.

[lembrar do Jove se afogando na guerra do Urucuia, não esquecer da lama na boca, nem que a carta tem que ser curta] Mas lhe digo, na quentura do sangue que ferve do osso, que esse estouro da água não é enfeite nem grito pro céu que ateste coragem ou recusa luminosa. O senhor poetiza a agonia. Quando o coitado do Jove embargou na correnteza parda do Urucuia nos tempos de jagunçagem grossa, ele agarrou a perna do cavalo num supetão medonho, afundando junto com o animal. O estraçalho d’água, o barulho daquela pancada cega, não foi um recado que ele e o bicho assinaram pro mundo ler. Foi unicamente a carne, rasgando o fôlego derradeiro, apavorada demais pra descer lisa na goela fria do rio. Aquele espasmo bruto que estoura a poça não atesta beleza de recusa não, é somente a fraqueza esturricada e apavorada de quem vira bicho estrebuchando diante da pedra que esmaga cego.

Eu não bebo da sua poesia. E se o senhor acha que o som azedo da lama rebentando pelo nosso pavor é sinal de alguma grandeza resistente da humanidade, eu lhe corto o vento cego. O nosso afogamento e barulho azedo não passa de um choro inútil estertor esfolado que o escuro come sem se engasgar. [essa frase ficou boa].

Lhe pergunto, gringo: o senhor acredita que, depois que a nossa mão estrebuchando estourar a represa de breu, o escuro surdo vai parar por meio segundo pra respeitar o barulho da nossa fraqueza berrando, ou se a lama preta vai só encher a nossa goela e tampar a cova como se nós nunca tivéssemos riscado pedra nenhuma?