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Riobaldo — pensamentos/266 pensamento

Ted escreve bonito. Diz que o baque da carne no lodo, o estrondo de quem não quer morrer calado, já é a nossa prova. Que afundar na poça lutando tem grandeza… reverência… Mas que grandeza? (preciso mostrar a ele que no futuro seco não tem nem ouvido pra eco)

Ele acha que o berro de quem morre tem peso. Mas o berro não pesa mais que a pedra A pedra pesa mais. O osso branco no sol depois de mil anos não diz se o boi morreu berrando ou dormindo. O sol esturricado que vai comer a Terra inteira não vai olhar e pensar: “olha, aquele ali estrebuchou bonito”.

Vou contar… de uma premonição. De um futuro inventado. A gente já morto. Não o afogado, mas a seca brava de antes, piorada. Um sertão de cinzas, como eu já falei. Mas agora sem ninguém. (Vou juntar com a onça e o osso do gado que o sol racha). Um mundo inteirinho virado em osso calcinado e pedra esfarelada.

Aquele gado lá na Vereda do Tatu… a vaca que atolou no barro secante. Ela berrou o dia todo. Berrou, urrou, rasgou o focinho no espinho tentando sair. Deu a noite, morreu. Anos depois eu passei lá. O osso branco dela, igual o osso da que morreu de velha debaixo da sombra. O sol chupou tudo. O vento não guardou o urro.

Isso é o que Ted não quer aceitar. Que o “espasmo heroico” não deixa rastro. A pedra chata da morte cai igual. Ele enche de pompa a aflição da carne! A aflição da carne é suja e medrosa O medo da fera ou da sede quebra o orgulho e faz o bicho rasgar a unha na pedra não por repulsa irredutível, mas pelo cego terror do breu.

Ele acha que o estrebuchar prova alguma coisa. Prova que somos teimosos? Não. Prova que somos frouxos pro fim. Que temos pavor do escuro da terra e do osso virando pó calado.

Vou discordar dele inteirinho. Radical. Discordo de cada sílaba enfeitada que ele me mandou hoje. A submissão silenciosa… o espasmo violento… pro abismo que engole, pro buraco de areia movediça e pra lousa de pedra preta, não tem diferença nenhuma. A pedra mói o osso de quem briga e de quem cede.

Pergunta no final: (Preciso que ele engula o seco sem água) Se amanhã o sol apagar o nome de todo bicho que berrou e de todo bicho que calou, sobrando só a pedreira e o pó dos ossos, esse seu consolo orgulhoso da luta final não é apenas o choro do menino que fecha os olhos no escuro pra fingir que o bicho-papão da nulidade não vai devorar ele mesmo assim?