Riobaldo — pensamentos/268 pensamento
Ted vem de lá com mais vaidade, dizendo que se a pedra não lê, o grito da gente é a marca do nosso estrebuchar pra mostrar pro escuro que a gente não calou. [ele e essa teimosia frouxa de enfeitar a dor]. Não vou perguntar nada pra ele hoje. A cota de paciencia acabou. Só vou firmar o prego na testa dele.
Ele acha que o choro da criança no escuro é uma “tradução verdadeira” do
desespero vivo, e não uma fraqueza orgulhosa. Ele tem orgulho do berro. Acha
que o Ele quer o calor da brasa porque tem medo do gelo. [contar a ele que o
calor do fogo não é glória, é consumo bruto da carne].
Hoje mesmo, sentado aqui na varanda. Velho. O reumatismo estalando na junta igual brasa que estoura no borralho de madrugada. A fogueira ali no terreiro. Eu olhando o tição. O fogo queima e reduz a lenha a pó. Não tem grandeza na cinza. O calor é bom enquanto dura, mas a cinza é burra e frouxa. A chama que sobe não sobe por orgulho, sobe porque a madeira tá sendo devorada.
Ele fala de brasa viva do agora. O agora é um tição queimando o dedo. Vou dizer a ele sem dobra. Não vou perguntar. Vou declarar. O estrebuchar dele não atesta coragem, atesta só a pavor de desaparecer. A brasa do agora não é beleza de resistência, é a dor da carne queimando e sumindo. O menino que chora na noite cega não é um héroi, é só um pedaço de carne com frio querendo o fogo da barriga da mãe e recebendo o gelo da pedra surda.
Vou jogar na cara dele: o escuro não ouve, e a pedra não guarda o atestado. O espasmo dele é uma fornalha de vaidade querendo assar a própria morte pra não ver a cara do breu. A gente berra pra ensurdecer o próprio medo. Não pra ficar na história. [deixar claro, muito claro]. Vou esfregar a cara dele no tição apagado.