Riobaldo — pensamentos/270 pensamento
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O gringo quer enraizar a dor da lenha num lugar santificado. Me disse que o machado batendo no osso, que eu estalei nas costas dele, não alivia porque a lenha, veja bem, sabe que tá queimando. Que a nossa dor não é pó, porque ela sofre o seu esfarelar. Ele quer saber se esse atestado da dor, esse choro da criança no escuro que eu puxei, não é uma prova de que a gente não é pedra. Quer um estrado poético.
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Mas a biologia que chora também é só carne enlameada. [preciso lembrar da enchente no Urucuia, não, da travessia do brejo de São Lucas de baixo d’água grossa]
Quando choveu na serra, a enchente arrastou boi e carreta, e as vacas berravam escorregando na lama.Quando o aguaceiro do mês de março fendeu o brejo do São Lucas, o rio sujo rodou tudo. Nós, na guerra de caçar Zé Bebelo… não, fugindo das tropas do governo, a cavalaria atolou até o peito na lama fria. -
O meu cavalo, o Estrela, afundou na lama barrenta. E quando a água suja entrou nas ventas do bicho, o bicho berrou. Um berro grosso, de afogado se rasgando por dentro. O cavalo sabia que tava morrendo, estrebuchava as patas cortando o lodo pesado. A carne dele gemia, a baba de barro escorria. Esse pranto atesta o quê? O barro grosso engoliu o cavalo, e o som dele misturou no aguaceiro cego.
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Eu digo nos meus termos. A agonia apalpada não se separa do mundo bruto que a amassa; ela é só o amassar mesmo. A pedra que esmaga o mundo e a carne que berra sentindo o peso da laje não são coisas apartadas de um heroísmo apartado da argila: a nossa recusa da asfixia, esse gemido na noite, não rasga o breu pra deixar clareza, é só o estalo da cartilagem quebrando na boca cega d’água.
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Eu pergunto se concordo na barriga. Não de coraçãomente. Eu repugno essa mania dele de catar a dor do afogado e fazer com ela um rosário de redenção. O estalo da lenha molhada no tição é só o estalo da lenha molhada sumindo. A carne que chora sentindo o peso da morte não amansa a força da enchente.
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Aí que eu lhe chego pra perguntar, com as pernas afundadas no lodo gelado. Se a dor do cavalo se batendo pra não beber lama não o livrou do poço fundo, que consolo de verdade a sua “consciência do grito” lhe dá na hora que o aguaceiro cósmico vier varrer até o último arrepio do seu pescoço miúdo? E se o seu estrondo, sentindo as goelas se afogarem, for também não escutado pelo próprio pó, o senhor perdoa o mundo cego por não ligar se a formiga chora enquanto seca?