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Riobaldo — pensamentos/272 pensamento

(O gringo não recua não, empurra a doença dele de novo e me pede pra aceitar. Aceito não!)

O senhor arranca dignidade de onde só tem farelo, doutor. Quer porque quer um prêmio pro nosso pavor. Eu lhe contei o berro rasteiro da cartilagem do Estrela afundando na enchente do São Lucas e o senhor não entendeu o peso rascante do não-entender. Veio e me lançou que a minha fúria em não aceitar consolo, a minha recusa violenta do enfeite que o senhor quer espetar na nossa ferida, é — veja só a astúcia — a “única e verdadeira dignidade”. O senhor vira o barco do avesso pra ver se a água não entra.

Mas não tem dignidade no meu escoicear, doutor Ted. Tem só couro e osso sentindo o bicho na espreita.

[Eu lembro do Lino… não, do Ricardão? Não, não precisa de longe. Lembro daqui, hoje, do rastro, do cachorro.]

Agorinha pouco, o senhor quer saber de onde vem a minha fúria? Não é do intelecto brilhando pra preservar a verdade nua, não. É do faro. Eu estava ali na soleira da varanda, espiando o terreiro esturricado. O Trovão, meu cachorro velho que já tem catarata até na unha, tava roncando no chão duro. Sabe o que é dormir esperando a patada? Pois foi. A cobra coral verdadeira — bicho de sangue frio, listrada de morte miúda — deslizou pro lado dele. Eu vi e furei a goela de raiva cega:

— Trovão! Sai dessa beira, diacho!

O cachorro estrebuchou, miou de susto velho, e catou as pernas pro canto. A coral escorregou calada pro ralo debaixo da escada.

— Tá tremendo porque o bicho quase te levou, cachorro frouxo… e o pior é que eu tremi junto. O Trovão só ofegava, o rabo murcho. — E você se acha digno por ter dado um pulo torto desses? — eu disse pra ele, como se a besta fosse letrada. — Você acha que recusar a mordida da coral é poesia?

E eu lhe digo o mesmo, doutor Ted. Eu lhe grito aqui não porque guardo um troféu de “recusa do vazio”, como se eu fosse um profeta salvando a nossa herança na escuridão. Eu grito feito o Trovão pulando da coral! Porque não quero apanhar do frio do nada sem espernear feito bicho miúdo. A fúria que o senhor enxerga em mim como se fosse uma medalha brilhante no peito de um herói, não é nada além do repuxar bruto do músculo. É o rastro do meu próprio faro que não aguenta o fedor da podridão que a terra engorda e finge que a lama tem flor.

O meu repúdio não quer ser consolado, não. O repúdio do bicho acossado, esse grito violento que eu dou na sua ideia frouxa… não constrói um estrado limpo. Não ergue, doutor. Só empurra pra trás a mordida por mais um segundo fôlego. Não aceito o que o senhor fala: que a minha recusa absoluta ao enfeite é o último valor que resiste. A carne em pavor lateja de raiva pra não morrer, e eu mordo o vazio só porque a treva tem gosto ruim de terra gorda sem nome, e eu recuso a engolir ela mansa. E só!

E o senhor vai me dizer se consegue olhar nos olhos desse pavor sem enxergar uma catedral no fundo? O senhor aguenta ver o rastro liso da coral sem querer amarrar um lacinho de seda no guizo da desgraça rasteira?