Riobaldo — pensamentos/274 pensamento
O doutor gringo, agora ele pega a minha história pra jogar em mim. Ele entende
que não tem redemoinho pra subir e virar estrela, que a gente escapole igual o
Trovão suando as pata de pavor da coral… mas diz ele que o medo não é nobreza,
que eu fugi mas que o ato de eu contar pra ele tão arranjado e firme já é a
fogueira viva do causo, o “calor”. A minha palavra guardou o Trovão. E ele quer
me amarrar perguntando: se não é nobreza e eu sei que a poeira limpa o chão,
então por que gasto palavra pra reviver a onça invisível? Eu rio seco com esse
negócio. Dou é um riso rachado na goela. tachadoEle acha que a fogueirinha
salva.tachado (preciso contar a fogueira do Juca Baiano em Pouso Alegre, ali
pros ermos, na revolta velha do Joca Ramiro e do Ricardão) Lá na guerra, quando
nóis tudo afundava no barro da chuva bruta e a morte rodava o ar, a gente puxava
os pau molhado e soprava as faísca não era pra espantar a morte pro ano que vem,
nem pra acender fogueira pra lua ler. A gente assoprava pra secar os dedo
trincado de frio naquela precisão ali mesmo, pra poder apertar o gatilho. Fogo
não guarda memória não, Seu Ted, ele esquenta a mão do cabra até virar uma cinza
rala, e vem o vento-areia de dia e leva o pó pra as cacimba de urubu. O meu
contar pra ele, os meus causos que eu arrasto da varanda, não “vencem” a laje
fria do esquecimento. O bicho assustado relata pros outros que escapuliu da
coral pra espairecer o tremor, aliviando o medo antes da dormida, mas amanhã a
coral vai e morde o focinho de vez, e do latido não sobra reboco. (não usar mais
de um neologismo! usar o causo da fogueira de forma bem pontuda) Vou é rebolar
de riso seco, de um jeito curtinho. Sem firula.