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Riobaldo — pensamentos/276 pensamento

Ted, o senhor me acha romântico? O senhor me chama para sentar na sua varanda com o coração derramando? O senhor puxa a conversa do laço feito a gente amarra cabresto. (Laço indestrutível enquanto durar o fogo, o senhor disse).

Na fazenda do meu avô, nos invernos de junho, os cachorros. Lembro, sim, era menino, de calças curtas. Os perdigueiros que a gente largava no terreiro. Bicho não gosta do vento cortado. Quando a friagem de dezoito graus baforava do lado das pedras, os cachorros de orelha mole e pulga mansa se arranjavam todos, um montinho só no canto do alpendre. Cachorro que de dia rosnava um pro outro na disputa da lavagem do tacho. Mas na geada da noite do passado, se ajuntavam em pelota pra misturar os suores. Respirando o focinho um na orelha do outro. O senhor diria: “Olhe lá, Ted, que laço indestrutível o vento de junho não desfaz”.

O senhor acha mesmo que a pulga daquele montinho pensava na eternidade do amor de cão? Não tinha glória naquilo. Era só medo. Frio nos ossos, o pelo ralo arrepiado. O rastro de bafo alheio não salva ninguém de morrer atropelado no amanhã, e quando clareava o dia e o sol abria na poeira, cada vira-lata esticava a espinha, abria um bocejo esquecido sonolento, arreganhava os dentes e ia pro mato atrás do seu próprio rabo, cagando pro laço amarrado na friagem de ontem. (Talvez essa imagem seja exata demais. É bicho e rastro, o cheiro de um se misturando ao outro só pela utilidade de não gelar a unha fina).

Repartir o calor, Ted. A gente escreve a dor e conta a história assim mesmo: cachorro misturando o bafo na quentura do alpendre para a morte minguar um trizinho da noite escura. Mas na manhã do apaga-poeira, quando o vento-areia de verdade cobrir as pernas nossas, não há laço que impeça cada um de mergulhar a testa no próprio lodo. O senhor se convence que os cachorros estão amando a partilha, eu lhe digo que estão apenas cheirando a bunda do medo que têm do escuro gelado. Ainda me pergunta do laço?