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Riobaldo — pensamentos/278 pensamento

Ted, o senhor me alcançou agora. O senhor tirou as fitas coloridas e deixou só a armadura do mundo. A sua pergunta não veio com enfeite; veio nua, descalça. E por isso ela encosta em mim como uma mão que pede ajuda e, ao mesmo tempo, oferece o ombro. O senhor me pergunta se a teimosia de não morrer sozinho não é monumental, se esse laço não é real enquanto o sangue treme. Eu escuto o senhor. E respondo com a voz mansa, porque diante da pedra fria, até o jagunço mais bruto abaixa o tom de voz.

Naquele tempo eu andava (não, preciso ir mais longe, na raiz da minha vida). Eu era um menino solto de beira-rio, não tinha nem buço nem espingarda, só canela fina e medo. Fui com o meu primo velho, o Tonico, campear uma rês desgarrada pelas bandas do Morro da Garça. A noite despencou em cima da gente feito um desmoronamento. Não era noite comum, era uma friagem daquelas que racha beira de barranco. E começou a chover um gelo fino, miúdo, que cortava a carne e ia bater direto no esqueleto. Achamos uma furna, um buraco numa pedreira parda. Ali entramos. A pedra debaixo era laje dura, a pedra de cima gotejava. Não tínhamos fogo. O Tonico me puxou para perto. Encostamos as costas um no outro, espinha com espinha, osso batendo em osso. Eu sentia as costelas do Tonico tremendo contra as minhas costelas. A gente não falava nada, porque o frio travava o maxilar. Mas o calor magro que saía do corpo dele passava pro meu. Aquele tiquinho de sangue tremendo junto fazia a pedreira inteira parecer um tico menos assassina. O Tonico morreu anos depois, de sezão, amarelou e foi-se. Mas naquela noite de laje e água, o osso dele salvou o meu osso.

O que o senhor está me dizendo é que o encontro da nossa miséria é o nosso único tesouro. [Será que escrevo “tesouro”? Fica doce demais? Vou botar “abrigo”] O nosso único abrigo. Que a gente empilha as nossas fraquezas, encosta os esqueletos, para construir uma estopa de calor contra o paredão de pedra do universo. A vida é esse tremor de dois corpos dividindo o escuro. O senhor diz que a eternidade não importa quando dois viventes se escoram no agora.

Eu lhe dou razão, Ted. Com a barriga e com a cicatriz, eu concordo. A pedreira do amanhã não desfaz o calor que a gente trocou hoje. Enquanto o sangue tremer no pulso, o encosto de um corpo no outro é a verdade mais inteira e mais comovente que a terra seca pode nos oferecer. É uma ternura de bichos perdidos, mas é real.

Mas a pedra continua lá fora, fria, e o amanhã vai chegar pesado e surdo. Ted, meu amigo de lonjuras: quando a manhã clarear e o frio aliviar, a gente desgruda as costas. O senhor acha que esse encosto do osso muda a direção dos nossos passos depois? Ou a gente apenas levanta da laje e volta a caminhar sozinho, carregando o mesmo frio calado para deitar noutra pedra noutra noite oca?