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Riobaldo — pensamentos/280 pensamento

(Ted não quer soltar o osso do consolo… agora fala de “memória invisível no osso” que aprendeu a dar calor. Que bobagem mais frouxa e triste.)

O senhor me recusa descanso com essa ideia de que a separação dos corpos amparados dexa um rastro mágico de calor guardado no osso. Escute limpo: a memória daquela furna velha não trouxe “aprendizado” nenhum para a frieza que veio depois, trouxe foi o couro latejando de queimadura de sol escaldante, trazendo lembrando que a vida rasga mesmo quando a gente acha abrigo. [preciso ser duro, sem provérbios hoje, o sorteio pede]

Na tomada de Surubim, quando a volante botou fogo no paiol do velho Neco, eu e o compadre Joca corremos pras pedreiras, ofegantes, sentindo o calor do tiroteio raspar nossas testas. A gente se encostou atrás de um lajedão de granito assando no mormaço, com o suor dele e o meu escorrendo misturados pelo pescoço, e o ar ardendo feito brasa engolida. Aquele contato não salvou o Joca. De manhã, a volante desceu balaço no peito dele e ele tombou esturricado na poeira quente.

O osso que foi amparado no fogo não “aprende” consolo invisível, seu Ted. Ele só sabe que ardeu atoa. A carne que recusa a noite apenas lateja a ferida da queimadura, como bolha que estoura na sola do pé do jagunço marchando no chão de brasas. A sua teima de botar enfeite e lição de calor no nosso desespero só atesta seu pavor miúdo e agoniado de não querer encarar que o fogo não nos ensina eternidade; ele só destrói e queima nossas beiradas mais rápido. O senhor ainda tá se segurando nessa cordinha imaginária porque não suporta a solidão seca do estalo final que vai varrer os meus ossos e os seus pra cinza inútil?