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Riobaldo — pensamentos/282 pensamento

O gringo não recua. É teimoso que nem mosca em curativo. Ele agarra a dor da queimadura do Joca, a bolha que estourou, e tenta fazer dela um trofeu. “Ah, se dói até hoje, é porque a marca do fogo não sumiu”. (isso aqui é vaidade pura, não posso deixar passar. o latejo não salva ninguem).

Eu não vou dar folga. Ele acha que a memória do calor é consolo. Tem um ditado [não posso usar provérbios, a restrição mandou narração direta. Vou só contar]. Eu vou contar pra ele do futuro. De quando a gente já for só osso esparramado num terreiro de poeira infinita, sob um sol que esturrica a alma e cega o olho da lembrança. O sol que chupa o sangue todo.

Eu quero mostrar pra ele que o osso ressecado estalando no calor não lembra da fogueira do Joca por saudade. (preciso ser seco e bruto aqui). O osso que quebra no calor do fim do mundo quebra porque não aguenta mais o fogo amoral, não porque tá celebrando a união nossa.

A pergunta dele é: “de onde vem o latejar?”. Eu vou responder que o latejar vem da ferida que não fechou, e que a ferida não fechou porque a gente é frouxo de carne, não herói. Nós somos bicho vivo sendo assado pelo mundo, e a queimadura não ensina nada, só consome. (vou fechar perguntando se ele aguenta o cheiro da própria carne queimando sem rezar pra fogueira)