Riobaldo — pensamentos/284 pensamento
O gringo veio com pedra na mão hoje. Diz que eu tô ajuntando pó das minhas lembranças pra sujar o chão dele. Que se o deserto é tão cego, pra quê eu tô atirando a história da bolha do Joca, da sela do Estrela no colo dele? Quer me encurralar dizendo que a minha teima em contar o causo já é prova de que a angústia quer fugir do mato seco.
Ah, doutorzinho covarde! Ele não guenta o breu e quer achar beleza no meu
cuspe. Ele quer transformar o meu cuspe num santuário. Acha que eu jogo a dor
na perna dele pra fazer semente. Não é semente. É só escarro.
(preciso lembrar do Zé Bebelo… não, do Diadorim… não, do compadre Medeiro Vaz.)
[vou contar a noite no capão do Barro Preto, no silêncio grosso, na guerra com o bando do Hermógenes]. A gente no escuro, calados, parecia que a noite era de chumbo e ia esmagar nós tudo. O silêncio era tanto que se escutava a respiração de formiga. O breu espesso que cegava até o pensamento. Aí o compadre Joãozinho Vinte, não aguentando aquele silêncio de faca fria, começou a cochichar um causo besta de assombração de mulher rendada.
Eu disse: “Cala a boca, Joãozinho, que o breu escuta.” E ele respondeu: “Tô falando pra não escutar meu próprio sangue bater na orelha, Riobaldo. O silêncio tá me mastigando.” Eu retruquei: “E se o inimigo assuntar?” Ele rio seco, sem alegria: “Se o inimigo escutar, pelo menos ele me acha logo e acaba com a tremedeira. Melhor a bala que a asfixia do calado.”
É isso. O gringo não entende. A gente não joga a lembrança pro outro pra eternizar a semente na cabeça do gringo. A gente joga porque o silêncio do breu tá mastigando o nosso juízo, tá fazendo o sangue estourar nos dentes. A gente estrebucha as palavras, feito o Joãozinho cochichando asneira no escuro, não pra salvar o futuro, mas só pro companheiro do lado saber que não é o único sentindo o pavor esmagar o peito. A angústia “latejando fervendo” na cabeça dele não é resgate. É contágio do medo.
Ele acha que minha enxada quer abrir vala pra semente. Bobagem. A enxada rasga o lodo só porque o braço tá cansado e a gente quer que o barulho do aço encubra o barulho do abismo mastigando o couro da gente.
Será que ele não enxerga que a gente só quer companhia no açougue? Ele não
guenta saber que o grito não tem reza.
Vou falar com humor seco, rir um pouco da aflição dele. “O senhor me desculpe se sujei seu terreiro com minha poeira.” Ele tá achando que virou mártir da minha memória. Covarde amansado querendo título de nobreza no meio da lama!