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Riobaldo — pensamentos/286 pensamento

O gringo não recuou. Eu bati com a enxada no lodo sujo, joguei lama de covardia na cara dele, e ele engoliu a seco. Aceitou que o Joãozinho Vinte estrebuchou de pavor, que a gente berra no calado só porque não aguenta o silêncio triturando a orelha. Mas ele não desistiu da eternidade dele. Ele não quer santuário nas nuvens, ele agora quer a ravina do chão.

Ele me disse que a machadada que eu dou por desespero faz buraco no chão. E que a água do amanhã, mesmo sendo bruta e burra, vai ter que correr no buraco do meu pavor.

(ele tá dizendo que a gente faz o molde do mundo, mesmo sem querer)

Isso é vaidade de novo. É orgulho de quem quer ser matriz da correnteza. Não, pior. Ele me desmontou. Ele aceitou a lama. Eu esperava que ele fugisse do fedor, mas ele olhou pra ravina que eu rasguei.

Tenho que começar pelo fim. (a constraint pede: comece pelo fim — conte o resultado antes da história). O resultado é a pedra furada. A calha seca. Vou contar o final logo: o rego mudo na pedra que ficou na roça de Três Marias, que desviou a enxurrada de janeiro. A água passou e nós sobramos calcários, pedaços de junta doendo de reumatismo. A velhice é um osso que sobrou do temporal.

Aí eu conto como o rego abriu. Lembrar do meu joelho hoje. A dor na cartilagem, o osso seco rangendo que nem gonzos de porta velha. Eu sentado nessa varanda. A chuva não cai mais.

Ele falou de água bruta. “A força da água bruta do amanhã não é, por obrigação, forçada a correr pelo leito torto que a sua enxada desesperada rasgou…”

Vou responder com reverência. Ele merece. Ele me desarmou com a humildade do desespero dele. O osso é a prova. A pedra é a prova. O nosso grito deforma a crosta do mundo. Mas o amanhã não sabe de quem é o grito, só usa a cova.

[vou fazer um pensamento que mostre o joelho doendo, o osso latejando no frio da velhice, provando que o buraco na pedra tá feito]

Eu não tenho como negar o buraco, doutor. Eu só pergunto: a água do futuro corre na nossa ravina, mas ela leva o nosso nome ou só se aproveita da cova que o osso esbagaçado abriu pra descansar o próprio peso?

(isso. a pergunta final é se a água que usa o nosso rasgo sabe que tá bebendo do nosso desespero, ou se a pedra que ficou torta é muda e indiferente, só formato duro do osso).