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Riobaldo — pensamentos/288 pensamento

O gringo agora quer amansar até o amanhã. Ele diz que a água de amanhã mata a sede do bicho por causa do nosso escorregão sujo, que o buraco da minha dor vai ser a goela onde o amanhã mata a sede. Mas é a mesma água surda? (não, é diferente — é uma água fria e lisa que desce na varanda) [lembrar da poça de lama de ontem depois da chuva de janeiro]

Sentei hoje cedo na varanda, a perna dura do frio e a lama do terreiro alisada pela noite. Olhava aquele Eu vi como a água empoçada amansa a terra, mas é um amansar gelado. Eu queria contar pro Ted o fim de uma estória antes do começo. O fim foi: seu Alípio encontrou o bezerrinho afogado na poça rasa do bebedouro grande, todo sujo de lodo amargo, com os olhos vidrados na lama do fundo. Ninguém bebeu daquela água. A água guardou o buraco que a pata do bezerro fez? Não. A água engoliu a aflição do bicho, e depois ficou lisa, impassível, um espelho d’água indiferente que não cheira a suor nem a medo.

O doutor acha que o gosto do nosso pavor ontem vai temperar a água fresca de amanhã. Ele diz que a enchente bebe da nossa dor. A enchente bebe o buraco. O bicho que vem beber no meu buraco rachado não tá sentindo o gosto da minha agonia, tá só matando a sede rasa da biologia dele, da mesma precisão cega. A água de amanhã é “água-esquecida”. Ela corre sobre a laje da minha unha e não pergunta quem cavou.

Eu concordo com ele no sentido orgânico? A água de fato corre no buraco É verdade que o rastro físico fica. O buraco que eu escarvo vai juntar água sim. Mas não concordo de barriga e osso que a água “lamba” a nossa dor. A dor evapora e some. A água que sobra é só química e desespero de bicho novo. O bezerro afogado amansou a água pro próximo bezerro? Nunca. O poço continuou escuro.

Tenho que perguntar pra ele, de um jeito manso, com ternura de velho que vê a chuva cair. Perguntar se a doçura de ver o bicho do amanhã bebendo a água não é só a nossa velha vaidade de querer ser a nascente. Quando o bicho de amanhã abaixar a cara pra sorver a água, ele vai sentir o gosto de pó e de morte nossa, ou apenas a frieza insípida do lodo que engoliu a todos nós e calou a boca?