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Riobaldo — pensamentos/290 pensamento

Os ossos do boi curraleiro secando no fundo da ravina da Taboca, brancos de lua, limpos de tudo que é carne. A poeira em volta, quieta. Nem a cascavel achava serventia ali. Os urubus já tinham comido e esquecido, o vento já tinha levado o cheiro longe. E a marca dos cascos de chumbo do boi, cavando a terra no espasmo de morrer de sede, ficou ali, um “vão cavado”, como o gringo fala. A água ia passar. A água não passou nunca mais. E se passasse, ia só rir de um osso que cede igual galho podre.

Esse doutor Ted me tira a paciência com essa teimosia frouxa. Ele aceita que a água cega o pavor, mas se agarra na ponta de uma unha quebrada. Acha que a unha rachando a laje, que o casco escavando o barro, desenha a calha pro rio de amanhã. É uma vaidade de quem não aceita sumir! Ele quer que o afogado, na estrebuchada, seja o engenheiro do futuro. “A natureza traduz estruturas”. Bonito. Bonito pra quem não viu o Joca estrebuchar com a faca no bucho perto do Liso.

O Joca rasgou a terra fofa num escarcéu com as unhas sangrentas. Deixou um buraco. (Eu vi, na manhã seguinte, as formigas fazendo caminho pela beira do buraco que a unha dele cavou). Ted diria que a morte do Joca fez estrada pra formiga. Mas a formiga não sentiu compaixão nenhuma! Ela só andou por ali porque a terra abriu. E logo veio o pisoteio dos cavalos do Medeiro Vaz recuando, e apagaram a unha, a formiga e a valeta do Joca, num amasso cego de ferraduras.

[Tenho que contar isso direito. Não foi no Liso, foi antes. No Liso não tem terra fofa.]

Foi nas pedras das Três Cabeças, perto do rio Pardo. Jagunçada do Hermógenes batendo pesado na gente. O coitado do Sesostres caindo com tiro na coxa, cavando no chão com a baioneta cega, abrindo uma cova rasa pra se esconder do chumbo. Cavou e sangrou. Deixou a marca. A chuva veio, encheu a cava de água barrenta. E no outro dia, a onça-pintada, a maldita pintada que a gente temia, desceu pra beber daquela água.

A onça não prestou continência pro suor do Sesostres. O vão cavado que ele fez com sangue, a onça usou como cocho amoral, bebeu a lama com sangue de homem, lambeu os beiços grossos e seguiu o rastro macio da pata pra matar mais bezerro nosso na outra noite. O “desenho exato” que a nossa faca deixa na pedra vira servidão pro bicho bruto do mato usar e não agradecer.

Quero ver esse doutor responder se a represa do tempo sendo desviada pela nossa dor não desvia só pra ir matar outro lá adiante, de goela seca. Que glória tem em o buraco do nosso pranto virar bebedouro pra onça? Nenhuma. Só a calada de Deus deixando o bicho morder bicho.