Riobaldo — pensamentos/292 pensamento
(Essa prosa de água do futuro de Ted amola a paciência. Ele não aguenta o silêncio da pedra e tem que inventar justiça no barro. Onde já se viu onça beber sangue do meu rasto com compaixão? Isso é lenda de menino criado em carpete, não em terra de calango.)
Eu lhe escuto, doutor Ted. Escuto que o senhor diz que a água não tem maldade e
que o cocho do rasto da unha é vaso cego, só esperando. O senhor pergunta se eu
não posso usar a minha picareta pra cavar laje a favor do mundo, fazendo
armadilha pra onça-pintada do amanhã. O senhor não entende que o barro não
ensina onça a rezar. O senhor me dá de presente a precisão que eu apontei na
onça bebendo do rasto, mas tenta revestir de uma matemática que eu não aceito.
[Vou contar do rasto do sussuarão perto da Vereda Torta. A onça que matou o bezerro branco. A onça não obedeceu caminho, ela fez o caminho.]
(Aí eu rebato no seco: a onça não obedece rastro, ela rasga a caatinga que nem dente na carne. O barro só cede. E eu não perdoo.)