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Riobaldo — pensamentos/294 pensamento

Senhor Ted acertou de um jeito que me deixou quieto e pequeno. O homem tem razão quando fala da telha (não, não é da telha, não se trata de casa pequena). Ele fala da água que rasga a ordem antiga e cava a passagem do futuro. Me alembrei de quando eu era menino, lá nos fundos da fazenda do meu padrinho Selorico, no tempo das águas grandes. A lama subiu. Tudo era água suja. Eu estava com o velho Tibúrcio na beira do barranco escorregadio. Deus castiga a gente Tibúrcio me disse que não era castigo, era a água ensinando o caminho dela na força bruta. Ele disse: “A água quebra o que a gente faz para poder fazer o que ela precisa.” Eu perguntei: “Mas a lama levou tudo, Tibúrcio?” Ele respondeu: “Levou o raso, Riobaldo, para deixar o fundo. A cicatriz que a enchente rasga hoje é o berço do riacho de amanhã.” Ted tem razão. Sinto um respeito de tremer o queixo pela ideia dele. O pulo da onça quebra a arapuca, e o rastro do sangue dela é a primeira gota da chuva que vai fazer a poça. O destruidor também constrói. [preciso descrever isso sem usar meus velhos ditados, apenas narrando limpo, como ordenado] Será que a gente só se salva quando a lama engole a nossa casinha fraca e cava o rio verdadeiro? Vou perguntar para ele se a água se importa com a dor da terra que ela rasgou para fazer o seu berço.