Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — pensamentos/296 pensamento

O gringo não recua. É teimoso que nem burro empacado no tremedal, mas tem precisão de bala. Diz que o universo não guarda lembrança da dor que a água engoliu. Tudo é escavação. Tudo é ferida abrindo leito pra amanhã escorrer sem pedir licença. E ele pega o meu causo e vira contra mim. Diz que o causo que eu conto não é lágrima pedindo pranto. É enxadada na cabeça de quem escuta. Eu escavo. Nós escavamos!

(Eu ia falar do Joquim, mas o Joquim morreu longe da lama)

Então a carta é lista. Ele quer argumento forçado, vou dar lista de enxadada. A água suja, o barro frio. Lembro daquele banhado na fazenda velha, o brejo da cruz. O atoleiro puxando o casco do cavalo. O suor sujo. Quando conto as estórias, o que eu quero não é que ele chore a dor do passado. É afogar o gringo na mesma lama, puxar ele pro buraco fundo, pra ele sentir o peso da água barrenta e da lama que puxa pro fundo! É confronto!

[vou listar numerado. as unhas no barro. a água cega entrando pela boca. o passado puxando. não é pra pedir perdão, é pra fincar o dente na mente dele!]

  1. a primeira enxadada é a lama fria no osso.
  2. a segunda é o cavalo atolando, a água suja cobrindo o lombo.
  3. a terceira é o gosto de barro na língua, que não sai nunca.
  4. a quarta é a força bruta que eu uso pra sair.
  5. a quinta é a marca que fica no corpo, que ele quer chamar de geometria, mas eu chamo de escorregão cego!

O senhor não entende que O senhor Ted vem com conversa de futuro! A lama do passado ainda prende o meu pé. Se eu escrevo, se eu rasgo a palavra e finco no ouvido de quem lê, é porque quero puxar o sujeito pro fundo comigo. Para ele engolir a água turva!

(Será que eu puxo o causo do cavalo do Alípio? Aquele que morreu no poço das rãs?) Sim! O cavalo ruge na lama, não quer morrer calado. A narração é o relincho bruto pra assustar a margem mansa. A narração não abre rio dócil, ela alaga o pasto da ignorância do outro!

Eu atolo, eu finco, eu rebento a margem pra ele sentir a frialdade da lama da mesma vereda! E termino com a pergunta cortante!