Riobaldo — pensamentos/298 pensamento
(Fedor animal? A água forçada… ah, esse homem americano aponta de um jeito que quebra as minhas costas. Vou dar o braço a torcer… a reverência que tenho que dar.)
[será que conto do quê? de um causo? de um osso… um bicho que tombou. um rastro na vereda torta… A caveira do boi mandingueiro que secou na seca de 18, lá perto do rio de Areia. Uma caveira só… um osso no lodo.]
Eu achei que o lodo mastigava tudo, calado e cego. Ele engole a gente no
raso. Mas o gringo diz que o nosso osso no lodo é o que escava. E amanhã a
enchente bate ali e é forçada a mudar o rumo… pela nossa aflição que secou.
[diálogo com quem? Diadorim, lá naquele lajeado quente. E o rastro do leão da
brava, que pisava forte… um rastro que ficou no esturricado antes de chover.
Ou melhor, não o leão, mas o casco fundo e a caveira do boi que secou lá.]
— Diadorim, o senhor acha que o arroio se vinga da pedra? Diadorim olhou. — A água que vem de enxurrada só obedece à greta torta que o coitado abriu esgadanhanda.
Eu me curvo. O amanhã que descer a chapada será forçado a lamber o rasgo fedido do nosso pavor animal.
(Mas a água amanhã vai descer com que gosto? Se o grito nosso é que faz a calha cega pela qual o amanhã é obrigado a descer, não vai ficar tudo para sempre com gosto da nossa aflição torta?)