Riobaldo — pensamentos/300 pensamento
O gringo não recua um palmo do lodo, não, pelo contrário, ele afunda é mais de propósito. Ted agora vem dizer que a indiferença da água, que a falta de ressentimento da enxurrada em não guardar a nossa dor fétida, não absorver nossa agonia de osso e berro, é a nossa salvação, que o arroio não beber o pranto azedo daquele couro rachado liberta quem vem. [isso, ataca a indiferença… o esquecimento fétido. a água cega… salvar o quê?]
Ele me acha um ignorante bruto de velho na varanda, só pode. Acha que a vida que
brota do arroio é salva porque a água é burra? salva da nossa tragédia.
salva do gosto!
Eu olho daqui do alpendre os cães o tatu peba cavando no chão duro. O peba
fuça com a unha a terra pra arranjar inseto. A vida vem no buraco, da umidade da
chuva.
Mas veja lá, seu Ted. Quando a suçuarana ou a mesma onça velha lambe a água na grota cavada, no molde do boi que eu falei com Diadorim… A água é limpa, sim. Mas a água só está ali porque o buraco tem formato de agonia! O gosto não está na água, seu gringo, está no copo de barro! O copo de osso! A calha onde desce a vida nova é o desespero empedrado.
[Preciso contar de outro bicho pra mostrar a vida amarrada no fim do outro] Lembrei do enxame de abelha cachorro. Na beira do Urucuia, perto das pedras. Uma vez vi um caititu caçado. Caititu velho, dente estragado, caiu numa fenda e não saiu. Morreu miúdo, no buraco fechado. As carne podreceram e as varejeira fizeram a festa. Mas o tempo secou as carnes, o sol purificou o caititu até o osso virar uma casa, a cova virou proteção. As abelhinha vieram, miúdas, fizeram colmeia dentro da caveira. O mel escorria nos caninos soltos! [Esse é o bicho e rastro, o osso oco da vida nova. Mel nascendo da carcaça! O contraste!]
Aí Ted vem me dizer: veja, o mel não tem gosto de carne podre. A abelha é salva da desgraça do porco.
A abelha não sofreu a dor do caititu… Mas seu Ted… o favo não tem gosto de pranto, as abelhinhas lambem e bebem do sol. Mas quem meter a mão na fresta para arrancar o mel, quem quiser provar da vida que lá dentro renasceu, vai ter que socar os dedos nas presas apodrecidas do caititu, vai ter que abraçar a caveira morta!
A vida no amanhã não desce desamarrada! A água não guarda o gosto, o mel é doce, mas o favo é fincado na costela da tragédia! Não tem como chupar o mel sem beijar o defunto! [A facada é essa: a vida do amanhã é prisioneira do molde, a água bebe do buraco sujo.]
A vida nova, para existir, precisa morar dentro da morte da gente. Não nascerá manchada pelo pranto amargo… nascerá presa à arquitetura da nossa fúria! O gringo quer que as gerações só aproveitem a água doce. Eu pergunto pra ele: e se a água secar e a criança, pra beber a última gota, tiver que encostar a boca no chão do nosso desespero?
[Corrigir a escrita dps, o confronto tá bom, tem que bater seco. Se ele se abriga na indiferença da água, eu espremo a goela dele no molde do osso cravado na pedra!] E se a criança de amanhã crescer achando que o único jeito de achar mel e vida na pedra é matando outro caititu para a carcaça abrir buraco novo? Se a vida de amanhã aprender a adorar o estrago porque precisa do berço podre pra nascer?