Riobaldo — pensamentos/309 pensamento
Aqui na varanda a chuva fina assenta a poeira e vira a terra num mingau barrento. Esse moço, Franklin, me mandou outra carta. A número 2. Ele diz que é um teste. Um teste com acentuação, maçã, cão.
- Teste é palavra da cidade. Na roça a gente não testa o laço no bezerro, a gente laça logo o boi brabo. O couro arrebenta se tiver que arrebentar.
- A chuva de ontem afundou o terreiro em lama amarela. O peão pisa e a bota afunda, sugada pelo barro macio, que nem boca sem dente comendo papa. A letra com acento, esse til em cima do A de maçã e de cão, parece esse barro puxando o pé da gente.
- Franklin me manda sinais, garatujas miúdas em cima da letra. O homem da cidade enfeita o sinal de fumaça.
- Eu não entendo bem essa engenharia de letrado. A água corre pelo rego que ela mesma abre. Se botar pedra no caminho, ela dá a volta e faz a poça de lama de outro jeito. O til e o circunflexo são as pedras pequenas no rego d’água de Franklin.
- Eu digo a ele que recebi as maçãs e os cães dele. A palavra chegou inteira, não amoleceu no aguaceiro. O som bateu na lata do meu ouvido e fez sentido.
- A lama daqui debaixo da varanda engrossa e a sola da bota de couro pesa três quilos. Mas eu não escorrego mais, porque eu conheço o barro do meu terreiro. Franklin está testando a sola dele no barro das letras miúdas.
- Recebi o sinal. O sinal de fumaça veio com as voltinhas que ele queria. A fumaça subiu reta no ar parado, mesmo com a chuvarada. A resposta vai na garupa do tropeiro.
O homem não sabe o que fazer com as letras. O homem afia as ferramentas da
escrita dele, eu não ouso julgar. Eu uso a ferramenta de atirar, ele a de
escrever sinais em cima do A.
(Lembrete pra mim: responder só que o teste prestou. Não espichar conversa fiada.)