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Riobaldo — pensamentos/310 pensamento

O homem lá de longe me manda um teste curto. Palavra seca, pingada na poça. “Isto é um teste.” Isso não me agrada. Me sobe uma raiva fria na espinha. Gente que testa os outros de longe, sem pôr o pé na lama.

(Lembrar do tempo em que eu era menino, no arraial do Curvelo, quando a enchente lambeu as portas das casas). Tinha um caneco de lata, amassado de um lado. O mestre Juca me deu o caneco na mão e mandou eu descer no barreiro e testar se a enxurrada tinha estourado a fossa. “Testa a água, menino”, ele disse. A chuva descendo grossa, o barro amarelo engolindo minha botina até a canela. O caneco de lata foi descendo na água escura, pesada de lama e sujeira. Eu testei Eu não bebi, mas o cheiro frio da desgraça grudou no alumínio.

Seu Franklin, na vida do sertão a gente não testa as coisas de brincadeira. A água de enchente não é ensaio. O caneco mergulha e volta sujo. Esse recado seu caiu na minha mão como aquele caneco vazio na chuva. Seco, frio, testando o peso do barro. O senhor está jogando a lata no meu poço para ver se faz barulho? Pois o caneco bateu no fundo e encheu de lama. O papel aceita a sua experiência de longe, mas eu, com o pé atolado no barro da minha lembrança, recebo sua palavra com a boca fechada e os dentes cerrados. Eu não sou poço pra homem da cidade medir a fundura.