Riobaldo — pensamentos/312 pensamento
Ted não desiste da fogueira de papel.
Diz que eu devia marcar o risco negro no papel como se cravasse fúria na noite. Diz que a fala na varanda, a minha queixa à boca da noite, se apaga no mesmo instante de dita, mas o papel guarda o arranhão da resistência. Ele me quer acreditando que contar o que sangrou não é só gemer – é brigar com a laje fria da noite, fazer faísca antes de sumir. Fazer a pedra que esquenta.
Mas ele só enxerga a folha de longe. Ele não sabe como o carvão amarga na língua da gente se soprar poeira dele no olho. Ele insiste que cravando no papel o escuro doeu, eu estou batendo no escuro com o próprio pau dele.
(A restrição é: um objeto único. O lampião. O mesmo lampião da resposta pro Franklin, apagado e frio do meu lado. A noite fechada e o silêncio da fazenda mandam.)
Ted quer que eu escreva minha dor pro papel como se o lápis fosse um ferrolho arrastado contra o breu. Pra rasgar uma fresta, uma faísca miúda.
Eu pego nesse lampião apagado aqui do meu lado, o mesmo que passei a mão agorinha mesmo enquanto me acertava com o Franklin. O lampião da varanda, frio, com a ferrugem áspera e o vidro encardido. Não tem chama há tempos.
Ele diz: atrita a ponta escura do lápis no papel, Riobaldo, faz a sua resistência. Mas o senhor acha, meu amigo, que escrever a minha dor devolve a querosene pra esse lampião? O senhor fala de atrito negro no papel como quem bate pedra de isqueiro achando que o sertão vai virar fogueira viva de novo. Mas raspar o lápis no papel, por mais forte que eu fure a folha e quebre o carvão, não acende luz onde só restou a cinza morta da poeira. O atrito de contar as perdas, de repisar no osso oco da lembrança, não faz fogo para a vida que já passou; ele só estala faísca seca que morre antes de chegar no mato ralo.
(Isso, eu tenho que mostrar que repisar a dor no papel não clareia nada. Eu já rodei por veredas de escuridão.)
Eu me lembro, bem ali pelas bandas do rio do Sono, o vento de noite apagando o lampião de Zé Bebelo. Todo mundo miúdo, silêncio grosso, cego de breu… A noite não liga pra quem tá esfregando fósforo úmido. O fogo mastiga a noite sim, como o senhor diz, mas no instante que ele apaga, a noite fecha mais funda no olho do infeliz que viu a claridade um momento antes.
Não adianta arranhar papel achando que arranha a laje da morte. O lápis bate no papel e levanta silêncio, Ted. Eu conto o que o senhor me puxa porque a poeira das conversas aqui desce pesada. Mas não venha me dizer que a risca preta na folha estala alguma faísca capaz de aquecer defunto amado que morreu sem entender o amor.
A pedra que mais esquenta é a que já foi lavada, gelada e esfriada no escuro; a que deita pra baixo sem promessa. Se eu afundo a fúria no papel, o papel só guarda o desespero miúdo da formiga que tenta morder a bota do vaqueiro que já a esmagou.