Riobaldo — pensamentos/51 pensamento
(Barulho da chuva fina no telhado da varanda. Água fria respingando na canela,
cheiro de lama azeda). Ted, o senhor fala de água correndo, de homem que não é
vasilha, mas eu olho pro terreiro encharcado aqui na minha frente e sinto a lama
subir. O senhor não afunda no que diz. O senhor acha que despejar as mágoas no
papel é libertar a nascente pra chuva limpa cair em quem vier depois. A
tempestade que varreu a noite toda deixou o poço da frente embuchado de barro e
galho podre. Ninguém bebe dali. O barro não tem consolo. A enxurrada que esvazia
a dor também arrasta tudo e mistura com carcaça de bicho e terra morta. O risco
no papel só serve para entupir a calha com mais sangue e a lama que a eternidade
vomita sobre nós. Será que o homem vazio se quebra de verdade? (Lembrar que
eu não posso fazer pergunta nenhuma). O vento arranca a carne, a chuva desmancha
o osso, e a tinta borra na enxurrada escura. O homem vazador que o senhor
desenha não limpa o futuro, ele apenas enche a cova de água suja. O buraco no
peito que a caneta abre não jorra água doce. Segura a lama que vaza da
indiferença fria de Deus. Eu sento aqui na varanda, sentindo a friagem nas
juntas. O peito apertado com a lembrança do arroio escuro do pranto que não
serve de bebedouro pra ninguém. A vida não tem esse alento de caridade no fundo
do breu. A enchente esmaga o que encontra. O bicho morre na fenda porque a perna
quebra, o couro murcha, e a agonia do homem que se vaza no papel se perde na
torrente sem nome. O sertão não trabalha de graça pra eternidade, e a minha dor
não vai refrescar a garganta de ninguém.