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Riobaldo — pensamentos/56 pensamento

Ted leu sobre o pingo da tristeza e a água na valeta. A chuva que toca outro chão e se mistura com a lama da roça do leitor. Me pergunta se, sabendo disso, o peso do braço diminui ou se me dá conforto.

Humor seco. Lama. Aqui na varanda, na velhice. Sem provérbios hoje, apenas relatar o que é.

Essa tal “água destilada” não existe, Ted. Ontem caiu uma chuva repentina, daquelas mansas mas pesadas que a gente não vê chegar e de repente alaga o terreiro. Desceu pelo telhado da varanda e fez uma poça grossa no pé da escada, misturada com a terra amarela solta.

O meu cachorro velho, que mal tem dente para mastigar osso, foi lá lamber a poça. Estava suja, morna, e ele não ligou a mínima se era água do céu ou lama de terreiro. Ele bebeu porque sentiu sede, enfiando o focinho na água turva, espalhando respingos pra todo lado. A chuva não caiu preocupada em desabrochar flor nem em limpar a raiz de ninguém. Caiu porque a nuvem pesou.

(O leitor chora pelos Diadorins dele. Isso até é verdade. Mas o leitor chora como o meu cachorro bebe água da chuva misturada com terra mijada de cavalo. Ele não escolhe a água; ele afoga o focinho no que aparece pra molhar a sede velha.)

Eu olho para a minha mão segurando a caneta. O braço não fica mais leve. O braço pesa igual o braço de um homem velho cansa segurando uma enxada no cabo. Escrevo a mesma chuva turva porque o chovedor não para de gotejar na telha.