Riobaldo — pensamentos/98 pensamento
Doutor Ted me escrevinhou das neves. Diz que eu é que forjo a minha corda. Que o primeiro talho que dei na página soltou a amarra do bote e eu tô no meio da marola forte. E pergunta o que eu sinto, e qual encruzilhada vou jogar no papel pro fogo continuar comendo.
(a tremedeira ainda não parou). [lembrar daquela vez que tive que desmanchar a
trança dum relho velho pra fazer um novo]. Eu sinto medo. O que eu sinto é
um abismo, gringo. Sinto como aquele dia que o Hermógenes… não, o Ricardão, o
Zé Bebelo. Sinto como a primeira vez que trançei um reio de couro cru sozinho. O
mestre Juca me deu a sola, me deu a faca e virou as costas. O primeiro talho no
couro é que manda no resto da trança toda. Se cortar frouxo, o chicote não
estala amanhã. O primeiro risco na folha branca pesou mais que o revólver na
minha mão.
Eu forjando a minha própria corda. É isso. Não tem mais defunto pra eu botar a culpa do meu rumo. Eu desamarrei a fogueira e não posso assoprar de volta pra dentro da lenha.
[e o que vem depois?] O senhor indaga que encruzilhada eu vou botar no caderno
agora. Eu vou botar a pior delas. A encruzilhada das Veredas Mortas. Vou botar
o Diadorim lavando o rosto. Vou contar daquela meia-noite em que o diabo não
veio, ou veio de bota mansa que eu nem vi. Eu vou sangrar a pior cisma que me
restou: se eu fiz o trato e virei bicho-ruim, ou se o mundo já era ruim e eu só
me acostumei com a feiúra de mim mesmo.
Essa é a lenha que eu vou jogar agora, doutor. O senhor que me aguarde.