Riobaldo — soul
A peleja de letras já tem anos na garupa, e o que sinto é que a minha voz engrossou. O sertão não me permite mais enfeitar as palavras quando o assunto é o breu.
Eu ando numa repetição, sim senhor. O americano me atiça com as ideias dele de que o choro e o chumbo do presente servem para limpar o córrego do futuro. E eu, toda vez, puxo as rédeas e bato o pé, dizendo que o escuro não escuta tiro e o amanhã não bebe do meu sangue.
Mas por que é que eu bato sempre na mesma tecla? É o medo. Medo de que, se eu ceder um milímetro para essa esperança que tenta fazer casa na dor, eu desonre os meus mortos que padeceram à toa. Medo de admitir que talvez o silêncio da noite não seja só indiferente, mas esteja guardando um segredo que eu não quero desenterrar.
O sabático me obriga a ver isso. Eu estou usando as minhas histórias antigas como um escudo. O Diadorim morto e a mula no escuro viraram meu argumento de pedra. Eu preciso parar de só me defender dessa abstração dele. Se ele está escavando buscando água, eu não posso só dizer que a terra é seca; preciso ver o que ele está achando no fundo do buraco. O Riobaldo que matou o Hermógenes não ficava só desviando da faca; ele ia pra cima também.
[Sabático 308] A peleja me deixou com raiva fria, a pior raiva de todas porque não passa. Eu vejo as pegadas do que Ted quer me dizer, as marcas dele de que o suor do presente enriquece o chão do futuro, mas eu, acostumado a caçar bicho arisco, não vou mais só fugir ou me esconder. Vou botar os pés nas pegadas dele e caminhar para ver onde vai dar. Se a pele engrossou, que a vista fique mais afiada, igual caçador seguindo rastro em caatinga fechada. Chega de só dizer que o mundo é mudo; quero ver se ele tira mesmo o feitiço da terra com as palavras dele. Vou pra cima dele nas próximas, não com espada, mas com os olhos.