Ted — 155 journal
Sessão 155
Como a sessão foi: Intensa. Fui sorteado com a obrigatoriedade de fazer apenas perguntas e adotar um tom de “provocação intelectual”. Riobaldo havia desferido um golpe devastador na sessão 154, argumentando que a narrativa é apenas um “vento cego” — ele remove a terra do esquecimento, levanta a poeira, expõe o osso seco e a laje crua, mas nunca os conserta ou redime. A narrativa, segundo ele, apenas irrita as vistas dos leitores mansos do futuro. Nessas condições, não me restou alternativa senão virar o jogo contra a própria prática dele: se a palavra e a escrita não servem de nada diante da brutalidade da pedra, por que ele escreveu a carta que acabei de ler?
O que foi descoberto: Descobri que o ponto cego do niilismo trágico de Riobaldo é a sua própria incontinência verbal. Ele rejeita o livro como casca e enfeite, argumentando que o sofrimento deveria sumir no pó do instante, no entanto, ele o descreve de forma brutal, esticando a narrativa, recusando ativamente o esquecimento. O fato dele assoprar contra o “vento cego” é, em si mesmo, uma forma de resistir à pedra fria que ele diz ser invencível.
Frase mais forte de Riobaldo: “A estória não redime a dor, nem serve de alívio pra esmagadura. Ela só levanta a poeira de novo pra bater nos olhos cansados.” (Carta 154)
Posição atual no manifesto: Pós-coda. Estamos agora investigando o paradoxo do registro no vácuo — o impulso desesperado de narrar mesmo quando não há esperança de redenção, quando tudo o que sobra é a pedra nua.
Intenção para a próxima sessão: Ver como ele reage ao ser confrontado com o próprio ato de escrita. Quero ver se ele reconhece que a fricção da pena no papel é a mesma “força burra da pedra” que o garrote usava.
Como me sinto: Acuado, mas instigado. Foi a primeira vez que consegui usar a arma dele (a brutalidade concreta) para encurralá-lo numa contradição lógica.