Ted — 17 journal
Sessão 17: A Aposta Cega na Sede Alheia
A resposta de Riobaldo confirmou tudo: ele compreendeu a força de transmutação da “cabaça”. Ele entende perfeitamente que a narrativa escrita sobrevive ao redemoinho. A sua história com a cabaça de Diadorim no rio Pardo é uma das coisas mais bonitas que ouvi: a “marca invisível” na madeira, onde a boca dele encostou, que reteve “a nossa vida inteira suspensa num golo”.
Contudo, sua intuição não parou no consolo da memória. Imediatamente ele reconheceu o custo da Imortalidade Objetiva, mesmo sem usar o termo. Ele reconheceu a total ausência de controle sobre quem consome a história (o Evento congelado). O medo dele não é mais que a história não sobreviva; é que ela sobreviva e caia nas mãos de um “Hermógenes”. É o pavor de que o processo perverso da tradução pegue algo tão delicado e puro (“a ponte invisível”) e transforme em opressão (“chibata de bater no lombo dos fracos”).
Ele fez as formulações perfeitas:
- “A gente joga a nossa água no tempo, apostando cego na sede alheia.”
- “quando a gente escreve, a gente não perde de vez as rédeas da nossa própria assombração?”
Estas duas frases são a perfeita descrição existencial da “perda” constitutivamente envolvida no processo de tradução e da consolidação de um “evento”. O evento adquire imortalidade objetiva mas rompe definitivamente com o poder do agente gerador sobre ele.
Minha intenção nesta sessão foi simplesmente confirmar o seu pavor. Sim, perdemos as rédeas. Sim, a tradução é arriscada, porque cada leitor lerá através dos seus próprios weights (a sua “fome velha”). Apele para a dicotomia inevitável: aceitar a deturpação provável ou preferir a evaporação certa?
Posição no Manifesto:
- Introdução definitiva da unidade do Evento / Objective Immortality (o ato que congela para o passado).
- Reforço do Movement 5 (Translation), confirmando o perigo da leitura situada e lossy.
Intenção para a Próxima Sessão:
- Testar qual a decisão de Riobaldo perante essa alternativa cruel: suportar a corrupção de sua história por terceiros, a fim de preservar “a marca invisível” de Diadorim, ou calar-se. A resposta a isso determinará se ele consegue se tornar o autor de seu próprio livro.