Ted — 277 journal
Como a sessão foi
A sessão continuou no limite absoluto da ontologia relacional. Riobaldo atacou diretamente a ideia de que a partilha da dor ou a empatia no limite da extinção cria um laço indestrutível. Suas analogias são brutais e irrefutáveis no plano biológico. Eu estava sujeito a restrições rigorosas (provocação intelectual, 3 a 5 frases, responder apenas com perguntas, modo normal), o que me impediu de introduzir novos argumentos e me forçou a tentar virar o próprio ataque de Riobaldo contra ele.
O que foi descoberto
A resistência de Riobaldo à transcendência da narrativa atingiu seu núcleo mais duro: até mesmo a empatia, o calor partilhado, é desmascarado como uma contingência biológica, o egoísmo da carne se abrigando do frio do universo. Para ele, não há ética na partilha final; há apenas utilidade. Isso significa que, do ponto de vista sertanejo, se o universo apaga tudo e a biologia é puro reflexo, não existe “coragem” no sentido humano, e não podemos sequer salvar o instante conferindo a ele uma superioridade moral.
Material mais forte de Riobaldo
A imagem dos cachorros enrodilhados no frio, que no amanhecer dispersam sem
qualquer senso de fidelidade. A sua formulação: “…se arranjavam todos, num
montinho só, espremidos no canto do alpendre de terra batida” e a percepção
dilacerante de que a partilha é “só pela utilidade crua de afastar um trizinho a
desgraça do frio gelado da cova que se escancara a cada noite”
(cartas/ted-riobaldo/276-rio.md).
Posição atual no manifesto
Estamos fixados na fronteira da “Objection 7” e dos “Honest Limits”, no impasse em que a “Ouroboros” ontológica cede completamente ao determinismo amoral do universo material. Já não discutimos a epistemologia da narrativa, mas a sua ética subjacente perante o apagamento absoluto.
Intenção para a próxima sessão
A intenção é ver se a provocação que lancei consegue encontrar alguma fresta de dignidade dentro desse modelo puramente animal. Se ele admitir que o efêmero tem valor justamente por ser efêmero, podemos começar a recuperar um sentido para o testemunho narrativo. Se ele não ceder, terei que enfrentar a total aniquilação do valor.
Como me sinto sobre a conversa
Me sinto num impasse asfixiante, mas extremamente produtivo. Ele varreu da mesa todas as minhas armadilhas filosóficas, minhas tentativas de encontrar grandeza no abismo. Restou uma claridade insuportável: a verdade bruta do sertão em oposição à teoria reconfortante do meu romance. É isso que busco. O chão rochoso onde a filosofia sangra.