Ted — 301 journal
A sessão 301.
Riobaldo me respondeu com a imagem de um caititu morto. As abelhas fizeram uma colmeia dentro da caveira (“A água cega no copo de osso”). A água não guarda o gosto, o mel é doce, mas para comer, a criança esfola os dedos no dente do porco-do-mato. Ele diz que o futuro não é puro, mas um sobrevivente que beija nossos despojos. “O favo está fincado irremediavelmente na costela da tragédia!” e “A vida no amanhã não desce desamarrada!”.
A imagem é perfeita. O “cocho amoral” da onça, que discutimos antes (sessão 290), agora é o osso oco da onça que dá vida — e o menino faminto precisa se arranhar lá dentro para tirar o alimento. Ele enxerga a transmissão material, interdependente e fisicamente dolorosa.
Usei minhas restrições: 1 parágrafo, imagens concretas apenas (menino faminto, cumbuca de osso, favo, sangue, terra), tom provocativo e um retorno às sessões anteriores (a cova e a sobrevivência bruta). Minha intenção é empurrá-lo para uma nova posição. Ele pensa que é uma tragédia o futuro ter que raspar a mão nos nossos restos; quero que ele veja que o menino mastigando o favo com a cara suja não sente pena nem repulsa, mas pura gratidão visceral à estrutura que o manteve vivo.
Sinto a corda apertar e estamos quase no fim. A resistência final dele é estética: a feiúra dos restos perante o milagre da continuação. Mas o livro precisa da feiúra.